domingo, 18 de novembro de 2007

Orfeu e Eurídice (In Real Time)

Orfeu estava em frente ao televisor há tantas horas que já tinha perdido a noção do tempo que tinha passado desde que Eurídice tinha saído para fazer o quê? Ele já não se lembrava muito bem. Tinha qualquer coisa a ver com a morte, se não fosse a morte era algo parecido, Ah! já se lembrava tinha ido ao Centro Comercial Colombo, ver os saldos, mas isso tinha sido há tantas horas, ou seriam dias?, que agora já começava a ficar preocupado. Não moravam muito longe do centro comercial por isso aproveitou o intervalo de um jogo de futebol e colocando um casaco por cima do fato de treino lá foi à procura da sua mulher.
Entrou no espaço comercial que conhecia tão bem como a palma da sua mão a trautear o hino do Benfica, o seu clube de eleição, e pareceu-lhe que toda a gente olhava para ele com ar de aprovação, diria mais, que todos estavam rendidos àquela melodia, abrindo espaço à sua passagem para lhe facilitar a procura da sua Eurídice.
Sentiu-se uma espécie de semi-deus protegido pela aura criada pelo hino que assobiava cada vez mais alto em tom de desafio à música que insistia em sair dos altifalantes. Procurou Eurídice pelos locais onde sabia ser mais provável encontrá-la, começou pela secção de roupa do Continente, depois foi até àquela loja especial dos telemóveis, para a encontrar de costas voltadas para si sentada numa cadeira de demonstração de cosméticos que estava no meio do átrio. Eurídice estava a pôr-se ainda mais bonita. Orfeu percebeu que aquelas costas reconheceria em qualquer local, pareciam as costas de uma atleta olímpica de natação, largas e espadaúdas, inchado de orgulho decidiu surpreende-la por detrás segredando-lhe ao ouvido o seu nome. E foi o que fez, chegou perto dela, silenciou a menina dos cosméticos com o seu indicador esticado sobre os seus lábios escondidos sob o farfalhudo bigode. A menina percebeu logo e Eurídice devia estar de olhos fechados. Ele disse:
Euridice, está na hora do jantar…
Ela deu um pequeno grito estridente num comprimento de onde situado algures entre o prazer e o susto e disse:
Oh! Marido, vou já. Mas não olhes para mim assim, com esta máscara horrível.
Então eu espero que aqui a menina te retire a máscara e vamos para casa.
Foi nessa altura que a, até ao momento discreta, menina dos cosméticos disse:
Mas minha senhora, para a máscara fazer efeito tem que ficar com ela pelo menos mais meia hora…
Orfeu irritou-se um bocado com o tom dela mas não disse nada, foi Eurídice quem falou:
Não faz mal, eu vou assim, mas Orfeu só perante uma condição.
Diz lá, minha esposa.
Não podes olhar para mim até chegarmos a casa e eu tiver tirado este creme do meu rosto. Não quero que me vejas assim
Já sabes que eu obedeço sempre aos teus desejos, minha Euridice.
E lá foram os dois em direcção a casa, ele à frente dela a assobiar o hino do Benfica e ela atrás de máscara no rosto; Orfeu percebeu que agora as pessoas lhe abriam caminho por outras razões, já não pelo respeito induzido pela música que lhe saia dos lábios mas porque se queriam afastar do espectáculo que Eurídice parecia estar a dar. Orfeu viu tais expressões estampadas nos rostos das pessoas com quem se cruzava que começou a ficar cada vez mais curioso sobre o estado do rosto da sua Euridice, tentou ignorar os outros transeuntes mas era constantemente inundado por uma curiosidade impossível de controlar, até que não se podendo conter mais, olhou para trás. Euridice ao aperceber-se que ele ia olhar para trás desatou a correr o mais depressa que pode, para longe do olhar do seu marido, e tão depressa o fez que ele rapidamente a perdeu de vista, no meio de toda aquela multidão. Orfeu olhou então para o relógio e reparou que a segunda parte o jogo estava prestes a começar, decidiu instintivamente acelerar o passo para casa.



Orfeu visto por Cocteau, ainda longe de ser um Benfiquista.

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