sexta-feira, 7 de julho de 2017


NOS Dead Or Alive


Na imprensa é-nos dito que todos adoramos festivais de verão, e no inverno do nosso descontentamento até nos levam a comprar, ainda em época natalícia, o bilhete para esse sol que esperamos venha a ser a chave para uma garantida diversão. E ao preço que nos custa, mesmo que depois não nos divirtamos, temos que fingir que sim.
Eu também gosto de festivais, mas gosto daqueles festivais que respeitam os espetadores, que não vendem bilhetes para além capacidade razoável do espaço onde vão decorrer, que têm o cuidado de colocar o palco principal num local em que todos o possam ver e não num local plano, pois se até já os gregos, na antiga Grécia, sabiam da existência do anfiteatro, esse formato também não será uma novidade para os organizadores destes festivais.
Neste momento está a decorrer um festival cujo cartaz deste ano é um engodo baseado no esgotado cartaz do ano passado. Se no ano passado tivemos Arcade Fire, Radiohead, Grimes, Father John Misty, Courtney Barnnet, Hot Chip, Tame Impala, Foals, Pixies, etc este ano ficámos pelos The Kills, que aliás estiveram no Coliseu há menos de um ano, ou os dinossauros Depeche Mode e mais um outro ou outro doce musical espalhado pelo medíocre cartaz. E o cartaz só é medíocre porque os organizadores sabiam que, fizessem o que fizessem, iam vender os bilhetes todos e assim sendo para quê o esforço de tentar fazer um bom cartaz, fica-se por onde ficaram e continua-se a usar o slogan de que é o melhor cartaz de sempre, e alguns de nós até pode ser que se deixem convencer disso.
Eu estive presente na origem deste festival, antes mesmo de se chamar OptimusAlive, quando ainda se chamava LisbonSoundz, e aí até não correu mal. Era um espaço pequeno, com a quantidade certa de pessoas, um palco bem visível e um cartaz razoável. Mas de repente transformou-se neste monstro de fazer dinheiro, a música passou para segundo plano e com isso também as pessoas que gostam de ir a festivais pela música.
O ano passado, no último dia do festival a capacidade do recinto, estava obviamente ultrapassada, e qualquer pessoa que quisesse movimentar-se entre os vários palcos teria serias dificuldades em o fazer, estava tanta gente na zona do palco principal que vê-lo à distância nítida de um ecrã de televisão gigante era a única alternativa, mas para isso talvez fosse mais inteligente ficar por casa, certo?
Estes organizadores, ávidos de dinheiro, estão a contribuir para que quem gosta de festivais, pela música, se afaste cada vez mais deles e para além disso como controlam as outras salas de espetáculo acabam por não trazer concertos individuais, são mais arriscados economicamente e dão mais trabalho a organizar, e nós ficamos condenados a um deprimente deserto musical. A Aula Magna é um exemplo de uma sala que praticamente não tem atividade musical digna de nota há meses a fio e o coliseu é uma sombra do que já foi.
Por isso Sr Covões volte lá à sua humilde tarefa de organizar bons concertos musicais, em salas decentes como as que herdou da família, e deixe-se de festivais mortos-vivos que de Alive já só têm o nome.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Capricho


Capricho

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Ela sabia que a honestidade, quando partilhada com estranhos, suava sempre a falso mas isso não a impediu de começar a falar e de por vezes partilhar, com homens que acabara de conhecer, o ridículo dos seus pensamentos mais profundos. Claro que enquanto falava o ia avaliando, tentava imprimir na sua memória características físicas que ela sabia estarem condenadas ao esquecimento; a foda não tinha sido má de todo, para uma primeira vez, as primeiras vezes eram quase sempre difíceis. Agora falava sobre trivialidades com aquele quase estranho e isso para ela era como se estivesse no consultório de um proeminente psicanalista, ao mesmo tempo fazia o esforço possível para o não esquecer e sentia-se ligeiramente excitada com a possibilidade de voltar a fodê-lo a seguir a esta pequena conversa, quase de circunstância, não fosse o peso de alguns assuntos que ela por vezes insistia em debitar. Ela não se atrevia a olhá-lo nos olhos porque sabia que isso seria fatal para a continuação do seu monólogo, inicialmente, quando ainda tinha pouca experiência destas situações fazia um esforço por fazer essa ligação com o outro, depois percebeu que era inútil, o outro ou mostrava enfado ou uma espécie de interesse dissimulado que também era uma forma de enfado, ela sabia que estes desabafos só lhe diziam respeito a ela mas não estava muito preocupada em repetir a situação com o mesmo indivíduo era-lhe indiferente que ele estivesse ou não interessado nas palavras dela. Hoje decidiu que lhe queria falar sobre o seu marido, e dizia-lhe tudo o que havia a dizer sobre ele, ou pelo menos aquilo que ela imaginava saber sobre ele. Nem todos aceitavam assim com tanta naturalidade conversar sobre o marido da mulher com quem haviam fodido, mas através da exploração subtil do voyeurismo dos outros ela conseguia mantê-los interessados. Talvez porque ela, conscientemente, fazia o jogo deles e dava-lhes a esperança remota de poder comparar a foda deles com a do marido. Ela nunca os satisfazia completamente mas também nunca os desapontava, era fácil manter esta linha de compromisso e ajudava-os a mantê-los atentos ao que ela ia dizendo. Isto claro só acontecia quando falava sobre o marido, para os outros temas era mais complicado manter a atenção destes homens. Com as mulheres ela achava mais fácil manter estes monólogos e as fodas eram igualmente boas.
Aquele era o apartamento dele, situado no 8º andar de uma torre de apartamentos de subúrbio, e ela tinha ficado virada de frente para a janela, o vidro cristalino deixava ver uma fração de paisagem citadina, era a hora de almoço de um dia de verão, por isso a intensidade da luz fazia derreter os contornos dos prédios que pareciam querer ascender nos céus, sublimados, e desaparecerem naquela massa de azul celeste. Por segundos deixou o seu olhar perder-se nessa paisagem e quando recuperou consciência  do silêncio que tinha deixado suspenso, para sua surpresa foi interpelada por aquele estranho que lhe perguntou se era feliz. Os prédios depressa readquiriram novamente a sua constituição sólida, a vulgaridade daquela pergunta deixou-a pasmada e ela que sabia muito bem onde isto ia dar decidiu quebrar mais uma regra do jogo, que devia ser sempre só ela a jogar, e olhou-o diretamente nos olhos. Precisava de saber se ele era alguém a quem devia responder sim ou não, se seria um otimista ou um pessimista. Se adivinhasse o conteúdo da resposta que ele desejava ouvir ainda havia esperança de poder acabar com aquele diálogo que ela queria transformar outra vez em monólogo. A máscara que ele usou parecia impenetrável e ela teve que fazer um esforço suplementar para a poder ler, mesmo assim tinha a certeza que se ia enganar por isso socorreu-se da única resposta que a poderia salvar do silêncio, do que tinha deixado interrompido quando parou o olhar nos edifícios derretidos e que agora se tinham tornado tão reais como a tentativa de interação que ele tentava preconizar. Ele levantou-se e aproximou-se dela, ela ignorou esse movimento até ao momento em que ele aproximou o rosto do dela e a beijou suavemente nos lábios engolindo algumas das suas palavras. A ela pareceu-lhe que ele lhe havia roubado não só aquelas últimas palavras como todas as outras que se lhe iam seguir e por isso manteve o silêncio e nesse momento ele aproveitou para lhe fazer a mesma pergunta. És feliz? E só então ela percebeu que não era a reposta que lhe interessava, ele sabia já a resposta, ambos sabiam qual era a resposta, o que lhe interessava era outra coisa e ela ainda não tinha percebido o que era, e nesse momento sentiu-se assaltada por um daqueles momentos de pânico que eram cada vez mais raros nela. O pânico só se manifestou dentro dela. De fora era somente uma mulher que o afastou de si, empurrando-o na direção da janela e pedindo-lhe que a abrisse, acabou por lhe dizer:
- A minha felicidade seria agora tu lançares-te pela janela e eu ficar aqui na cama por de entre os lençóis que ainda guardam o teu cheiro.
Ela fechou ligeiramente os olhos e quando os voltou a abrir ele já lá não estava. Seguiu-se um silêncio musical, daqueles que anunciam o final de um belo quarteto de cordas, e ela respirou fundo entregue à memória do cheiro que ele lhe tinha deixado na cama.



domingo, 11 de outubro de 2015

                   
            Clássicos Gregos Para Totós   
                                                                          



Fiz questão de assistir à trilogia inspirada no teatro grego clássico e que deu início à nova temporada do D. Maria II. Já escrevi sobre a primeira das peças adaptadas por Tiago Rodrigues, Ifigénia, faltam ainda as outras duas, Agamémnon e Eléctra. O que sobrou dos textos dos autores dos clássicos originais é um espectro desses cânones literários, mas apesar de ser um flébil espectro não perde a capacidade de nos assombrar o presente. O encenador, e agora também director do Teatro Nacional, assume a imperfeição das suas adaptações mas nessa imperfeição não podemos deixar de perceber um movimento que pode ser muito útil à sobrevivência do teatro tal como o conhecemos. As adaptações, alimentadas pela urgência do tempo, não deixam de ser veículos muito eficazes de transporte da mensagem original dos textos que as inspiraram. Eurípedes, Sófocles e Ésquilo são os autores gregos das peças originais e ao longo dos tempos foram lidos, representados e adaptados pelas mais variadas gerações e épocas. Podemos ver essas peças subir ao palco vestindo as palavras originais, quem sabe se no grego antigo, ou assim com se viu no palco do D. Maria II. Ambas as apostas são arriscadas, ambas podem falhar, mas ninguém pode acusar os atores, que se empenharam em as trazer de volta de, pelo menos, não terem tentado.
Pessoalmente gostei do risco assumido por Tiago Rodrigues, acho que as histórias que habitam estas peças devem ser conhecidas do grande público, que os nomes destas personagem devem ecoar nos palcos dos nossos teatros, que as pessoas devem saber que Electra, antes de ser uma personagem da Marvel, já foi uma mulher que habitou a Grécia antiga e que deixou marca na memória poética dos homens.

As peças são-nos apresentadas segundo uma lógica cronológica e têm em comum o facto de serem todas tragédias. Sobre Ifigénia já escrevi e deixámo-la no altar do sacrifico como moeda de troca por ventos favoráveis às embarcações helénicas que foram à conquista de Tróia e do resgate da bela Helena. Agamémnon fala do regresso desse herói da guerra de Tróia, de uma mãe que se quer vingar da morte da filha e de um amante ambicioso que conspira para alimentar o desejo de vingança de uma mãe que nunca deixou Aulis, tendo ficado presa à memória do sacrifício da sua filha e que por isso nunca conseguiu perdoar o marido, Agamémnon.

A liberdade dramaturgica  que o encenador deu aos atores é visível e o trabalho de bastidores que envolveu a leitura do texto e a sua interpretação manifesta-se, tanto nos bons como nos maus momentos. Este trabalho deveria ser aproveitado para, com os mesmos atores, colocarem em cena os textos originais. Seria como observar a construção de um belo edifício a partir das suas fundações até à sua estrutura final e julgo que todos nós sairíamos a ganhar com essa aposta.
Tiago Rodrigues poderia ter sido ainda mais ousado e num derradeiro passo, que iria com toda a certeza irritar os que se acham detentores das produções de teatro clássico em Portugal e arredores, dar outro nome às peças ou talvez um sub-titulo em virtude da personagem que acabou por se destacar mais na adaptação da peça. No caso de Agamémnon é sem duvida Cassandra quem rouba todas as cenas, não só porque Isabel Abreu desempenha um papel magnífico, mas também porque se percebe que é naquela voz, que nos fala de um futuro no qual ninguém acredita, que se centra todo o drama das outras personagens. O mesmo acontece com Eléctra que na realidade se deveria chamar Orestes porque Miguel Borges consegue suplantar a interpretação de Flávia Gusmão (Eléctra) que nos apresenta uma caricatura de Eléctra muitas vezes superficial e a roçar o mau gosto teatral. Há momentos em que parece que a actriz fez uma associação básica entre Eléctra e guitarra eléctrica, e não estou a brincar porque existem sérias evidências desse facto. Eléctra conta-nos a terceira parte da história na qual a filha de vinga da morte do pai conspirando com o irmão, Orestes, para matar a mãe, Clitemnestra.

No seu conjunto foram três horas e meia bem passadas, imperfeitas, mas que naquilo que é essencial cumpriram o seu objetivo. Acredito que muitas das pessoas que lá estavam ficaram curiosas sobre aquelas personagens e com vontade de saber mais sobre elas, quem sabe até lerem os textos originais. Por essa razão, e para cumprir a sua missão de teatro nacional, talvez fosse útil encenar estas peças na sua versão original, tenho a certeza que quem foi ver estas versões truncadas iria com toda a certeza arriscar na leitura mais canónica destes dramas, conquistando-se assim público para uma arte que não se quer moribunda e que se deseja viva e de boa saúde.

sábado, 12 de setembro de 2015



Ifigénia em Áulis, ΙΦΙΓΕΝΕΙΑ Η ΕΝ ΑΥΛΙΔΙ, está identificada como a última tragédia de Eurípedes tendo sido estreada no ano de 450 a. C. e julga-se que apresentada já depois da morte de Eurípedes, encenada já não pelo dramaturgo grego mas pelo seu sobrinho.
No meu caso a primeira vez que ouvi falar nesta tragédia foi através da ópera homónima de Gluck, estreada em França no ano de 1774, inspirada numa peça dramática de Racine, tendo sido esta última suportada na obra original de Eurípedes. Na altura fui logo alertado que o final da ópera era feliz ao contrário do que acontece na apresentação do drama original. O público do século XVIII não queria ir à ópera para ver finais infelizes e por isso Gluck satisfez essa vontade contribuindo para umas voltas extra nos túmulos de Racine e Eurípedes. No caso da ópera, Ifigénia acaba por ser salva pela deusa Diana e casa com Aquiles, no drama de Eurípedes acaba degolada e sacrificada no altar que não do casamento. Num dos finais, possíveis, da peça de Eurípedes também surge a possibilidade de Ifigénia ser salva por Diana, não para que esta despose Aquiles, mas para a tornar sacerdotisa em Taurina onde, segundo algumas fontes, se irá reencontrar com o seu irmão Orestes. Mais uma vez Gluck musica este drama, Iphiegénie en Tauride, que pouco tempo depois será reescrito pela pena de Goethe. 
Ifigénia em Áulis, apresenta-nos uma história que em linhas gerais é simples mas de consequências profundas e dramáticas. Em Áulis espera-se por ventos auspiciosos que permitam levar os exércitos até Troia para resgatar a bela Helena, esposa de Menelau, que foi raptada por Páris. Agamémnon, irmão de Menelau e Rei de Argos, é quem convoca os exércitos para levar a cabo tão ambiciosa empresa, vem tudo descrito na Ilíada de Homero, mas neste drama teatral foca-se nesse momento em que surge um impasse alimentado pela natureza, a ausência de ventos, cuja consequência é os exércitos ficarem semanas à espera de uma guerra que tarda até que a situação se torna insuportável. Consulta-se então um oráculo que exige o maior dos sacrifícios em troca dos desejados ventos, Agamémnon deverá sacrificar aos deuses a sua filha, Ifigénia, para que os ventos regressem à baia Áulis, para que os Gregos possam embarcar e consumar aquela que veio a ser conhecida como a guerra de Troia. O drama centra-se então na escolha de um homem que se encontra dividido entre o seu dever de rei e o de pai. Claro que extravasa para além disso, e deixa expostas todo o tipo de ambições e desejos de quem rodeia a família real, e vamos poder ver em cena desde os mais nobres sentimentos, Aquiles, até aos mais vis e egoístas, Menelau, a dor de uma mãe, Clitemnestra, e todo um espectro de emoções ao qual ninguém poderá ficar indiferente.
Tiago Rodrigues decide arriscar e fazer uma leitura pessoal sobre esta tragédia grega respeitando o drama na sua essência, transporta-a até nós, espetadores sentados confortavelmente no século XXI, a muitos anos de distância de uma história que achamos que não nos diz respeito, e desse modo apanha-nos desprevenidos e quando menos esperamos percebemos quão universal é este drama e quão próximo da nossa história atual ele se encontra.
É  uma visão de profundo respeito e entendimento sobre o que é o teatro e de como ele pode ser vivido neste nosso presente. A adaptação consegue resgatar aquilo que é essencial neste drama de Eurípedes e trazê-lo para perto de nós, fazê-lo sentar-se ao nosso lado e perceber que este drama grego poderá não estar tão longe da Grécia que vemos agora nas notícias, que os dilemas humanos vividos podem não ser os nossos mas ecoam emoções cuja ressonância não nos deixa indiferentes. Esta adaptação/visão de Tiago Rodrigues consegue isso tudo graças também a um conjunto de atores muito equilibrado, com destaque para a Clitemnestra da Isabel Abreu. A exceção terá sido alguns elementos do coro, que inundaram as palavras de gestos demasiado intrusivos, desequilibrando um pouco o espetáculo.  

É a primeira temporada em que esta equipa se encontra à frente do Teatro Nacional D. Maria II e não posso deixar de achar auspicioso o modo como a iniciam demonstrando um conhecimento e amor pelo teatro que só pode contribuir para uma reaproximação do público por esta arte tão importante para o tecido cultural da nossa sociedade. Estamos perante uma visão global, inteligente, emocional e que não tem medo de correr riscos contribuindo assim para um teatro vivo, não o deixando esquecido e de salas vazias como tem acontecido nos últimos anos. Ontem a sala estava cheia e espero que assim continue por muitos anos e que este seja o prenúncio de uma longa e próspera relação entre nós e o novo Teatro Dona Maria II



quinta-feira, 25 de junho de 2015




Jardins de Cristais - Química e Literatura
Sérgio Rodrigues

No posfácio o autor confessa: " Muitos livros e referências foram lidos de uma forma apressada, facto pelo qual peço desculpa." E nós como leitores até o poderíamos desculpar se essa leitura apressada não tivesse um tão grande peso ao longo dos vários capítulos que constituem o livro. 
São vinte e dois capítulos que não passam, na maioria das vezes, da catalogação de referencias literárias extraídas de trabalhos de outros autores, quase sempre sem uma articulação eficaz  e  que por essa razão põem em causa a fluidez da leitura. Fazia muito bem ao autor ler os clássicos que cita, mas lê-los de uma forma profunda de modo a melhorar a densidade da sua escrita que sofre de volatilidade crónica.
Embora as razões expostas anteriormente possam tornar penosa a leitura do livro tal não me impede de congratular o autor pela tentativa de nos aproximar da Química através de uma via que considero fundamental para a sobrevivência de qualquer disciplina cientifica, isto é, sustentada numa visão complementar de outras áreas do conhecimento humano, neste caso a literatura, e se possível incluir também todas as outras. O autor lança uma ideia que nos alerta para a invisibilidade da Química num mundo onde ela se encontra presente em tudo o que nos rodeia. O autor sugere que talvez seja uma questão de marketing cientifico, numa sociedade onde os soundbits são a única coisa que se fixa na nossa memória, e quanto mais superficiais e atraentes mais eficazes. A Química poderia produzir soundbits destes a cada fracção de segundo com a única diferença de que nunca seriam superficiais porque lidam com temas que tocam o cerne daquilo que mais importa para conhecer melhor o mundo que nos rodeia.  
É um livro incompleto principalmente no que diz respeito a referências literárias ligadas com o teatro. É certo que são referidos Shakespeare e Strindberg mas faltam muitas peças de teatro contemporâneas cuja importância e impacto justificariam, por si só, um capitulo à parte. A única excepção é "Oxigénio: uma peça de teatro" de Djerassi e Hoffmann que depois nem surge referenciada na bibliografia do capitulo a que diz respeito. Talvez porque o autor não a tenha lido.
Eu desejava que este livro fosse mais maduro, que reflectisse um tipo de cultura cientifico-literária que tem poucos seguidores em Portugal. Na atualidade estou  a lembrar-me de Jorge Calado,  mas a estagnação é evidente e este livro só poderia sofrer desse mal. 

No entanto, e apesar das suas fragilidades, é bem-vindo e deveria servir de exemplo para outros escrevem sobre este tema, em Química, e já agora também noutras áreas cientificas. Todos ficaríamos a ganhar e os tais soundbits, de que a ciência tanto necessita, sairiam reforçados e com um poder ampliado. 

Nota: As capas dos livros de divulgação científica sofrem, na sua maioria, de falta de criatividade e originalidade e esta é mais uma vez exemplo disso.

quinta-feira, 28 de maio de 2015


Lobotomia: uma história de amor




E Morreram Felizes Para Sempre” é um espetáculo que me trouxe à memória a casa assombrada que há uns anos poderíamos encontrar na defunta Feira Popular, onde atores recriavam ao vivo cenas de terror (teatro imersivo?) ou a minha visita ao parque da Universal Studios, na Califórnia, onde fui encontrar uma versão ampliada da mesma casa assombrada mas com referencias fílmicas específicas, resultantes das produções dos filmes de suspense e horror deste estúdio de Hollywood. Não consigo decidir se é bom ou mau mas afasta-me definidamente daquilo que considero teatro, mesmo num sentido não muito restritivo do termo.
Desde que me conheço que gosto e frequento teatros, pelo teatro, e já o vi representado sob muitas formas mas que na sua essência respeitavam alguns dos princípios básicos que nos permitem identificar um espetáculo como sendo teatral. No entanto, neste caso, a tarefa torna-se complicada. Tudo é demasiado superficial para que possa ser considerado mais do que um competente anúncio de televisão, sobre o qual não devemos, nem interessará, pensar muito profundamente. Se o princípio que sustenta o espetáculo, a este nível, até pode ser considerado aceitável quando inspecionado mais profundamente, em termos teatrais, revela-se um desastre absoluto.
As ideias encontram-se tão soltas como a ligação dramática entre as várias cenas que só podemos acompanhar se nos dispusermos a correr, literalmente, de um lado para o outro, fixando-nos numa das personagens ou indo ao sabor das nossas decisões do momento. As ideias avulsas que encontramos seriam ótimas para vender o último champô ou desodorizante do mercado mas em termos dramáticos valem muito pouco. Talvez ajude a clarificar se fizer um resumo da sinopse, que vai buscar inspiração à muito lusitana estória de amor malfadado de “Pedro e Inês”. Como o espaço onde foi dramatizado este espetáculo é um hospital, em particular um hospital psiquiátrico, junta-se à estória de Pedro e Inês a da técnica de lobotomia de Egas Moniz, agita-se bem e espera-se que cole, mas infelizmente não cola. Cedo se percebe que o foco principal nem sequer é contar uma estória ou permitir que os espectadores se deixem envolver e emocionar por essa estória, o foco principal é criar ambientes em micro-palcos espalhados ao longo de mais de vinte salas e onde se exige um nível de concentração próxima de zero, como é apanágio de uma cultura televisiva cada vez mais dominada pelo zapping, o qual se tornou o exercício intelectual mais decisivo?) ou a minha visita da vez dominante o zapping se tornou o principal exercício nossas decisivo?) ou a minha visita praticado por esse mundo fora. A dança é assumida como o principal meio de comunicação neste espetáculo mas falta-lhe a dimensão da palavra, senão que teatro é este? Até no teatro-dança de Pina Bausch encontramos a palavra. As poucas vezes que a voz é ouvida é sob a forma de grito ou trasvestida de um playback manhoso e quase patético.
Como não somos presos pelo lado emocional acabamos por deixar vir ao de cima apenas o ser racional que no seu estado puro é quase tão brutal como o irracional e só conseguimos ver fórmulas gastas em todo o lado: os enfermeiros maléficos, a mulher louca, o piscar de olhos ao universo gay, pois Pedro, que neste caso é médico e sim Inês é enfermeira!, não só se apaixona por outra mulher, que não a sua esposa, como mantém uma relação com outro enfermeiro, o bom, (não, isto não é a Anatomia de Grey...) , na ausência de palavras usa-se o som estridente para confundir os sentidos, pede-se a um ator que faça nu integral, e um rol de clichés que nem vale a pena catalogar.
Se as nossas salas de teatro não estivessem vazias este espetáculo, a € 35 a cabeça, nunca seria uma afronta, assim como nos é apresentado é-o para todos os profissionais que tentam sobreviver através desta arte e que cada vez menos têm como o fazer de um modo digno. É mais um sinal de que a nossa cultura se encontra de rastos, e este espetáculo em nada se distingue dos concertos festivais-de-verão onde nos é pedido que andemos a pular de um lado para o outro sem que nos foquemos em nada em particular. Vendem-nos tudo mas na realidade recebemos pouco em troca, fica só a sensação de algo incompleto ou amputado, e neste caso não foi um membro foi mesmo uma parte do nosso cérebro ao qual é exigido cada vez menos em troca da adrenalina do momento, digamos que o apuramento da técnica perfeita de lobotomia como o professor Egas Moniz nunca imaginou ser possível.

Nota: Há um teatro sediado em Tomar – “Fatias de cá” - que faz este tipo de encenação há anos por isso nem pela originalidade podemos ser conquistados.

sábado, 9 de maio de 2015

The Unicorn - Iris Murdoch


O quarto livro foi The Unicorn de Iris Murdoch e aqui está uma escritora que se encontra condenada a não me desiludir. Não lhe posso adjetivar a escrita com elogios suficientes, é daquele tipo de escritor que nos faz desejar escrever como ela. A densidade literária é perfeita, o balanço entre o desenvolvimento dramtico do romance am´to dramrnos dias que correm, me fazem sentir desse modo um sistema reacional atático do romance e o ritmo de introdução das personagens não pode estar mais afinado, e este livro é um exemplo acabado disso mesmo. Marian Taylor, os olhos através de quem nos é introduzida a estória, aceita um lugar de perceptora num castelo situado num lugar distante, na costa inglesa, e o livro começa com a sua chegada a uma desolada paragem de comboio no meio de nada.  A partir desse momento sabemos que está para acontecer algo que vai transformar esta personagem para sempre, e de tal modo que a determinada altura do romance temos que abandonar o seu olhar e focarmo-nos no de outras personagens, nunca com grande sucesso porque as sombras e os contornos poucos nítidos que crescem à nossa volta são demasiado voláteis e misteriosos para poderem ser apanágio de uma só criatura. Ficamos com Marian o tempo suficiente para nos apercebermos do abismo que a rodeia, um abismo sob a forma de uma mulher que é também a dona da casa, uma beleza aristocrática decadente que, suspeitamos, se mantém viva através de whisky e que quase nunca sai do seu castelo. Ali por perto assombra-nos o mar que Marian cedo percebe ser tão indomável como a força que a vai puxando para o centro do mistério que é aquela mulher e de tudo a que a envolve. Mais de metade do livro lê-se quase ao ritmo de um romance policial e depois a espiral de acontecimentos, aqueles que verdadeiramente têm velocidade e impacto, parece que surgem para desacelerar a estória tornando-a mais pesada e difícil de suportar. Há apenas um senão um momento desnecessário em que Iris Murdoch decide educar o leitor através de uma lição pífia de filosofia por via de um diálogo, ao estilo platónico, entre uma das personagens principais e uma outra secundária, e que não acrescenta nada ao livro. As lições de filosofia já lá estavam antes deste formalismo que, no entanto, se esquece rapidamente por estarmos perante uma escritora tão talentosa. Se tivesse que resumir este livro diria, como uma das personagens o sugere, que é  uma versão adulta de um conto de fadas bem conhecido, a bela adormecida, mas com um final muito trágico e infeliz.