Gente Comum
Por causa dos prémios, e críticas literárias, já comprei livros que nada me dizem e que me deixam com a sensação de engodo. Por isso cada vez com menos frequência sigo o ditame dos prémios literários ou das longas listas de final do ano que incluem o melhor do que foi publicado. Mas há fascínios que não morrem só porque a razão assim o deseja e lá acabo por comprar aquilo de que toda a gente fala, claro que cada vez menos será uma gente qualquer, passo o snobismo literário.
Acabei então por comprar o primeiro livro da Sally Rooney, jovem escritora irlandesa, ampla e universalmente aclamada pelos quatros cantos do mundo literário. O livro foi lido no original “Conversation with friends” mas já existe uma tradução portuguesa. Sim, ganhou pelo menos um prémio literário e foi elogiado por críticos da New Yorker, revista onde a autora já imprimiu alguns textos, e outras publicações de referência.
Eu lancei-me na leitura do livro e é sem dúvida uma literatura que me cativou desde as primeiras páginas, elegante, subtil, profunda e com um sentido de diálogo que dá uma lição a muitos escritores que para aí andam. Ao terminar o livro fiquei com a sensação de que é um livro competente, muito bem escrito, mas que não passa de um prólogo para o que se lhe seguiu, esse sim, um livro extraordinário e onde é notório que a autora se encontra já sem as amarras que se pressentiam inicialmente na sua obra de estreia. É nesse segundo livro da autora “Normal People”, também já com tradução lusa, que se percebe claramente que estamos perante uma nova e brilhante voz da literatura contemporânea. Tudo no livro é perfeito, o tom, a profundidade, a emoção e como não podia deixar de ser o modo comovente como nos é apresentada a estória da relação entre duas pessoas comuns, um retrato tão íntimo que faz com que o leitor seja o meio através do qual as emoções das personagens navegam, e isso julgo que talvez seja o maior elogio que se pode fazer a um escritor.





