segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

The Bell


Afinal a Iris Murdoch não é a Dame Judi Dench e podia ficar por aqui, mas não é possível, pois cada vez são mais raras as descobertas de grandes escritores ou porque eles ainda não existem em papel ou porque os que existem, e aparecem nas bancas das livrarias que monopolizam o mercado, valem muito pouco e não passam de ruído literário que nunca será música, apenas uma cacofonia incómoda, irritante e reveladora da mais absoluta falta de talento. Deve haver exceções, mas a regra por enquanto é esta.
Também não é bom quando na nossa memória a primeira imagem que nos surge quando pensamos numa escritora é a da atriz que a representou no cinema, isto aconteceu-me durante anos com a Iris Murdoch, cuja existência eu desconhecia antes do filme que para cúmulo nunca vi, e a qual sempre associei à Judi Dench, numa estranha ordem de associação de ideias, Dame e depois Iris.

Esta ilusão terminou nestes primeiros dias do ano quando decidi começar a ler um livro que comprei em 2ª mão o que, pelas razões expostas anteriormente, só poderia ter ocorrido num alfarrabista, neste caso de Lisboa. O livro é “O Sino” e desde a primeira página nos é dado perceber que estamos perante um enorme talento literário e desde a primeira página fiquei suspenso desta escrita que possui uma respiração própria, profunda e densa, cujo ritmo acompanha de modo perfeito a vida das personagens. Murdoch é exímia em tudo, na descrição dos lugares, na leitura psicológica das personagens, na destreza da escrita e no respeito pelo leitor que assume como um seu igual mas a quem nunca revela o jogo todo. Neste livro, em particular, consegue fazer com que o espaço físico ocupado pelas personagens se imiscua nos seus gestos, sentimentos e atitudes, como um pintor que ao retratar uma paisagem conseguisse, através de um truque visual que ainda não foi inventado,  representar o humano como mais um traço da paisagem mas sem que esse traço fosse uma fronteira, antes pelo contrário, esse traço faz depender o exterior do interior e vice-versa, é um traço que vai permitir que o mundo material que envolve o humano o possua, tornando-o perniciosamente consciente dos seus limites psicológicos e comportamentais. Tu és o espaço onde vives, és a prisão que escolheste, a do teu corpo e do universo material que partilhas com os outros.

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