segunda-feira, 2 de setembro de 2013



Importância Material



“Stuff matters” de Mark Miodwnik director do “Institute of Making” do University College London (UCL) constitui um excelente exemplo do que poderá ser uma leitura estimulante sobre um tema tão pertinente como a constituição da matéria e dos materiais que nos rodeiam. 

A estratégia usada pelo autor para cativar o leitor é antiga mas muito eficiente, o livro começa por nos descrever um momento de perigo no qual o autor se viu envolvido quando ainda era adolescente. Ao relatar uma tentativa de assalto de que foi alvo e a consequente facada que sofreu, o autor não nos faz perder tempo com atitudes de auto comiseração mas transporta-nos logo de seguida para o que verdadeiramente o fascina, a lâmina que lhe perfurou o corpo. 

Assim ao apresentar-nos um episódio cheio de adrenalina prende-nos a atenção e ao mesmo tempo foca o nosso interesse não no óbvio, mas naquilo que estando tão presente no nosso dia-a-dia, quase que passa despercebido. Começa pela lâmina, mas isso é mais um pretexto para referir a importância que os metais têm na nossa vida, no nosso passado e presente. Divide os capítulos seguintes do livro de modo a fazer a introdução de alguns materiais que nos são muito familiares, tais como o papel e as várias formas que pode tomar, o cimento alertando para as raízes romanas da sua descoberta até à mais recente possibilidade da existência de um tipo de cimento que se cura a si próprio através da introdução de uma bactéria na sua composição. 
Há ainda espaço para o chocolate e a importância do tipo de cristais que formam esta deliciosa mistura que liberta cerca de 600 moléculas exóticas que assaltam a nossa boca e nariz. Depois temos o material mais leve do mundo, um aorogel de sílica cuja composição é de 99,8 % de ar, mas que é capaz de proteger uma delicada flor do calor se colocado entre a chama e a flor, e que já foi até ao espaço para tornar possível estudar, in loco, os detritos que resultam da combustão dos cometas que percorrem o nosso sistema solar. 
O omnipresente plástico que ainda é tão mal visto na nossa sociedade mas sem o qual a industria do cinema, celuloide, não poderia ter singrado ou ainda o vinil, tão na moda  outra vez, e que nos permite ouvir a música que nos é tão essencial, as nossas roupas algumas à base de licra e o silicone, que há quem use mais por debaixo das roupas. 
Temos ainda o vidro que apesar de tecnologicamente ter sido ultrapassado por outros materiais mais recentes continua a usufruir de um glamour que o mantém à nossa mesa e de onde nós continuamos a gostar de beber sofisticados vinhos de reserva. Num dos capítulos é-nos ainda apresentada a coqueluche do mundo material, o grafeno, parente muito próximo do diamante e do bico do vulgar lápis, na realidade é composto pelos mesmo átomos de carbono que estas duas substâncias. As revolucionárias  propriedades do grafeno vão ter impacto na electrónica, nos carros, nos aviões do futuro. O livro termina com um material delicado, a porcelana, e finalmente ilustra a importância dos biomateriais, tais como o biovidro, que permite, por exemplo, a reconstrução de ossos faciais e que funciona como uma espécie de andaime no qual se desenvolve a estrutura biológica que depois de formada pode abandonar essa “casca”. Outros materiais deste tipo poderão ser de importância vital para revolucionar a medicina num futuro não muito distante.

O livro apresenta uma linguagem muito acessível e qualquer leitor com uma formação científica básica estará apto a entender a importância que os materiais sempre possuíram desde os primórdios da humanidade, tendo mesmo sido responsáveis por revoluções tecnológicas que deram grande vantagem militar e económica às sociedades que os foram dominando ao longo do tempo. Basta relembrar que o tempo histórico pode ser dividido em momentos tais como a Idade da Pedra, a Idade do Ferro ou a Idade do Aço.
Agora só falta que alguém se interesse pela tradução e que muito em breve este livro apareça nas nossa livrarias traduzido em português, de preferência com uma capa melhor do que a do original.

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