Escrever sobre a normalidade, sobre os simples equívocos que povoam a nossa vida, sobre a nossa vida interior e de como o seu reflexo no mundo exterior pode tomar contornos tão ténues que é como se não tivesse existido, o insucesso, a não luta, a indiferença, as batalhas para as quais somos arrastados e que não queremos travar e muito menos vencer, as ténues fibras das memórias que nos sustentam, que nos distinguem dos outros e que nos permitem perceber a substância intrínseca do nosso ser. Falar disto tudo numa linguagem cristalina, depurada, sóbria, com o distanciamento certo que nos permite perceber que determinada personagem somos nós, ou pelo menos a maioria de nós, que dentro dos parâmetros que avaliam sobre um maior ou menos grau de sucesso da nossa vida estamos todos, em última análise, condenados aos insucesso, pelo menos sob o ponto de vista daquilo que nos é imposto pela sociedade.
“Stoner” de John Williams é um livro que ousa tocar em assuntos cuja profundidade vai para além das palavras que lemos. As obras primas surgem de lugares inusitados e na maioria das vezes não fazem capas de jornais ou revistas da moda, esta quando foi publicada talvez não tenha provocado qualquer alarido mas ao lê-la percebemos que se encontra para além do seu tempo e se projeta na eternidade literária.
Esta é a estória de um zé ninguém (Everyman), de todos nós, que por acaso trabalha numa Universidade mas que podia ter outra qualquer profissão porque o que o move é um momento de epifania intelectual e emocional, que ele passa a vida toda a tentar traduzir. Esse momento que o define, tão profundamente, e o faz tomar a decisão de estudar literatura, mas que podia em qualquer outra pessoa tomar uma forma distinta, toma a forma de uma quimera porque cedo ele percebe que embora seja uma máquina suficientemente sensível para receber e perceber esse sinal, nunca será capaz de o traduzir na linguagem dos outros e quando o tenta percebe que fica sempre muito aquém dos seus objetivos. Ele sabe que está condenado ao fracasso de conseguir traduzir esse sentimento e que os outros nunca o poderão compreender como ele. Ser humano é isso mesmo, passar a vida toda a lutar pela tradução correta das nossas emoções, de modo a que nos sintamos um pouco menos sós no universo. O que poucos ousam dizer e assumir, tal como Williams faz com este livro, é que quase sempre falhamos essa tentativa e que falhamos repetidamente ao longo da nossa vida, mas que apesar de tudo nunca deixamos de tentar.
sábado, 31 de agosto de 2013
domingo, 3 de maio de 2009
Wonderful Smile
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Talent Beyond Gender

Foi feita justiça ao se nomear Carol Ann Duffy como Poet Laureate, porque o talento, quando é grande, é para ser celebrado e não importa o género ou a sexualidade de quem o possui.
Ler mais aqui.
domingo, 26 de abril de 2009
Amazement

O Hubble anda há uns anos a explorar o espaço, para além da nossa galáxia, espreitando desse modo o passado do universo e consequentemente iluminando o nosso conhecimento do futuro. As visões capturadas por este poderoso telescópio são surpreendentes e não podem deixar ninguém indiferente. Alguns, ingenuamente, dizem ver coisas que se parecem com arte ou religião inventada pela imaginação humana mas essas comparações ficam sempre aquém da realidade das fotografias que esse precioso instrumento tem capturado para nosso deslumbramento, e a realidade é que essas imagens são tão emocionantes como um conto do Borges, uma gravura de Da Vinci, o binómio de Newton (para relembrar Álvaro de Campos) ou o Magnificat de Bach. Para quem ainda possa ter dúvidas pode consultá-las aqui e optar por ler só com as legendas científicas, até porque essas já possuem mistério que chegue sem que seja necessário recorrer a fracas comparações com aquilo que os nossos olhos já viram, e eles nunca viram nada assim.
sábado, 25 de abril de 2009
Handel With Care

Aqui ainda não tinha anunciado os 250 anos da morte de um compositor que me acompanha há muitos anos e que cada vez mais se torna indispensável na banda sonora da minha vida e, imagino que também, da minha morte: Mr Handel, figura maior da galáxia das estrelas musicais e que só encontra paralelo em vultos com a dimensão de um Bach ou Mozart ou Wagner.
Neste infeliz País, que hoje celebra um dos mais felizes dias da sua existência, o 25 de Abril, escolheu-se celebrar a obra do mestre colocando em cena, no São Carlos, a ópera "Agrippina" a qual elejo como uma das minha favoritas. Até aqui tudo muito bem mas no entanto, ao que parece, essa demonstração de afecto deu em desastre total, com amputação desta obra musical, desvirtuando-a por isso, e também pela escolha medíocre de cantores e criativos, cénicos e de direcção musical. Se assim é, dou graças aos deuses por não ter ido porque razões para estar descontente com o caminho que leva a divulgação da cultura em Portugal, já tenho que chegue e sobre; aliás já temos todos, pelo menos os que ainda andam de olhos abertos.
Resta-nos, para celebrar a obra musical do Mestre, adquirir gravações que lhe fazem justiça e que celebram a música barroca sem despudor e orgulho e imaginação e inteligência e sensibilidade e competência e profissionalismo. Disso são exemplo as duas últimas gravações em cd que adquiri recentemente: "Ezio" pelo Il Complesso Barroco dirigido pelo Alan Curtis e "Faramondo" pelo I Barocchisti sob a batuta de Diego Fasolis.
Obrigado Sr Handel, que afinal para além de inglês também és com certeza muito português, pelo menos de cada vez que te ouço sinto que não pertences a nenhuma nação em particular, embora algumas te tratem melhor do que outras a tua música encontra-se muito para além dos exercícios de mediocridade que com ela possam querer fazer.
sábado, 14 de março de 2009
Oh Yeah! Yeah Yeah Yeahs
Eles já vão no terceiro álbum e até agora nenhum correu o risco de se perder no caminho do esquecimento; existem poucos grupos tão consistentemente bons e duradouros neste universo, cada vez mais, de fast-food musical. Aqui fica o vídeo oficial, via o site oficial, com a esperança oficial de que eles nos visitem num destes festivais de verão, de preferência num daqueles sem muito pó.
É só carregar aqui e "Zero".
É só carregar aqui e "Zero".
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Dia Horribilis

Hoje está a ser um dia negro para o nosso primeiro-ministro, José Sócrates, reuniões e gestão de influências pouco claras no caso Freeport, apoios pouco chorudos da comunidade europeia à recessão que pelos vistos em Portugal é menos preocupante do que nos outros países da união, citação de relatórios elogiosos à politica de educação que afinal não provêem de uma fonte independente, supostamente a OCDE, mas de um estudo encomendado pelo próprio governo, ainda os tais projectos aprovados pelo Eng. Sócrates quando funcionário na Câmara da Guarda e que têm levantado muitas suspeitas sobre quem os terá realmente assinado e ainda o facto de um tal Sr. Dr. Juiz João Pedroso, irmão de um não menos famoso Dr. Paulo Pedroso, ter andado a fazer uma “sistematização da legislação sobre Educação publicada nas últimas décadas” para o ministério da Drª Maria de Lourdes Rodrigues tudo pela módica quantia de € 287.980,00. Mas ao que parece o Dr. João, à altura do contracto, estaria a trabalhar em regime de exclusividade na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, facto ignorado tanto por ele como pela Srª Ministra, talvez porque isso implicaria receber menos 30 % do seu vencimento de docente; além do mais o Dr. João encontra-se de licença sabática para fazer/escrever o doutoramento. Confusos? Bom se para além disso ficarem a saber que o Sr. Dr. Juiz não acabou o trabalho mas que entretanto já recebeu a quantia estipulada. Revoltados? Então e se ficarem a saber que segundo o Público “Paulo Pedroso (irmão do Sr. Dr. Juiz) é colega da ministra e de outras altas figuras do Ministério da Educação num centro de investigação universitário (no ISCTE)”. Incrédulos? Então fiquem a saber que segundo a mesmo fonte o Sr. Dr. Juiz passou 28 recibos verdes, 14 pelo recebimento relativo ao trabalho para o Ministério e outros 14 não se ainda sebe bem para quê; mas para quem se encontra em regime de exclusividade é sem dúvida muito recibo verde para um homem só, mas que, não haja dúvida, anda muito bem acompanhado.
É uma tragédia que a oposição esteja a ser dirigida por um copo de leite morno esquecido há muito tempo fora do frigorífico. E nem todo o leite coalhado dá em bom queijo, nestas condições de pouca higiene, que é a política portuguesa, o mais certo é dar num queijo que há-de cheirar mal (como é apanágio) mas que infelizmente também há-de saber ao que cheira, e como é do conhecimento geral é no sabor que se encontra a verdade e qualidade do mais sofisticado produto lácteo.
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