quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Cultural Shower


Nas últimas semanas foram-me acontecendo espectáculos e livros e filmes e exposições sobre os quais nada disse e porque já não me apetece dizer muito deixo aqui apenas uma lista para os ajudar a fixar na minha memória e vou-me deixar levar pela tentação das estrelas, mas só nalguns casos:

Exposição sobre o Imperador Adriano no British Museum 5 ***** (Pena haver tanta gente na manhã da minha visita, mas comprei o excelente livro/catálogo que acompanha a exposição e assim posso ver tudo com mais calma cá por casa)

In-i Juliette Binoche/Khan no National Theatre 4 **** (Porque o monólogo da Binoche colada à parede precisa de ser trabalhado, de resto ela dança melhor que qualquer celebridade do Dança Comigo)

Lago Dos Cisnes pelo Royal Ballet na Royal Opera House 4 **** (Porque a Prima Ballerina não era a Alina Cojocaru e o Thiago Soares não estava num bom dia)

Indignation – Philip Roth 5***** (Eu escreveria In-Dig- Nation mas essa é a minha mania de ver para além das palavras)

Black Mass – John Gray (Sem classificação porque ainda não o li todo mas perece-me quase tão bom como o Straw Dogs)

The Master of Petersburg – J.M. Coetzee (Autor que nunca li e do qual já tinha ouvido falar com muito entusiasmo por parte da Maria Dulce Cardoso, escritora maior das nossas letras, sim essa é a razão da minha vontade de o ler (o Nobel não chega); isso e o facto de ser uma dramatização sobre a vida do Dostoievsky.

The Separate Heart & other stories – Simon Robson (Um conjunto de contos de um autor da nova geração que me deixou muito curioso)

Thames (Sacred River) – Peter Akroyd 5***** (Para ler acompanhado pelo magnífico London do mesmo autor.)

Naked – Mike Leigh (Um dos filmes da minha vida por razões que nem é preciso explicar porque as obras primas não se explicam)

Mahabharata – Peter Brook (Uma das minhas memórias mais felizes da televisão a par com Decálogo do Kieslowsky)

Regarde La Mer and short films do François Ozon – (Excelente edição da BFI com um pequeno livro com ensaios sobre o meu realizador francês dilecto da actualidade, se realizasse gostava que fosse como ele)

The Page Turner realizado por Denis Decourt (Resultante de uma curiosidade instilada por leituras várias, neste caso é só faro e vou às cegas. Ainda não sei se me enganei porque ainda não o vi)


Nip/Tuck (4ª Série) – É complicado às séries post- “six feet under” sobreviverem de um modo digno e esta nem com muita operação plástica de dramaturgia deixa ser uma espécie de mau filme porno, sem as cenas explicitas de sexo, e com estrelas decadentes de Hollywood a darem um ar de sua graça.

Siegfried do Richard Wagner no São Carlos - *****5 (Pela encenação do Graham Vick, genial desde o início do ciclo) ***3 (Pelo resto que está pouco acima da média, Wagner cantado e tocado de um modo sloppy nunca resulta)

Paris realizado por Céderic Klapisch com a dupla Binoche/Duris ***3.

Le Silence de Lorna dos irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne ****4.

Ler a Ler


Desde que a revista Ler recomeçou a decorar as bancas de jornais e algumas prateleiras de hipermercados de livros com pretensões a livraria de culto, leia-se FNAC, comprei-a duas vezes: a primeira por curiosidade, sórdida, a mesma que me leva por vezes a comprar uma revista cor-de-rosa e da segunda vez porque na capa era anunciado um conto inédito do José Cardoso Pires. Da primeira vez serviu-me para constatar aquilo que já sabia, ou desconfiava, que é uma revista de amigos composta em grande parte por grandes promessas da literatura contemporânea portuguesa algumas das quais viram a primeira luz do dia literário no defunto, ou semi-moribundo, DN Jovem. Não tenho nada contra a amizade, ou contra o facto de se dar trabalho aos amigos, só me causa algumas reticências quando os amigos pensam todos da mesma maneira limitam-se a ecoar a opinião uns dos outros, porque isso empobrece qualquer amizade e por consequência qualquer actividade sustentada nesse tipo de relação.
A revista em termos gráficos evoluiu muito pouco desde a última vez que (a)pereceu nos escaparates, no entanto passaram alguns anos e como tal seria expectável que alguma coisa tivesse acontecido pelo seu interior. Podiam começar por brindar os colaboradores com umas fotos menos tipo cartão viva Lisboa, as quais não lhes fazem justiça. Este é, no entanto, um pormenor humorístico sem metade da graça de alguns dos textos escritos por esses mesmos colaboradores. Comecemos então pelo editorial escrito pelo Francisco José Viegas, director e mentor, e antes de mais salutá-lo por ser um editorial de duas páginas, daqueles como já não nos é dado ler muito frequentemente, onde se faz um pouco de auto-promoção, característica do escritor, sobre um programa de sua autoria que vai ser emitido em breve na RTPN. O tom mais sério, do editorial, e imagino que a sua razão de ser resulta da continuidade de uma discussão, que já vem do número anterior, e da qual me foi dado um vislumbre numa destas noites de Domingo quando fiz uma paragem pelo programa da Paula Moura Pinheiro, onde esta jornalista havia sentado frente-a-frente o Viegas e a Isabel Alçada, a das Aventuras, e onde se discutia a importância da introdução dos autores “do cânone” no curriculum escolar. Nesta discussão o Viegas, obviamente, mostrava-se indignado pela ausência desses mesmos autores do programa escolar, e para o demonstrar de uma forma veemente, a meio da discussão, saca do Moby Dick, do Herman Melville, assim a jeito de quem não quer a coisa, e nesse momento nalguns esclarecidos lares portugueses deve ter surgido um sorriso nos lábios de meia dúzia de incautos. O sorriso poderá ter origem em várias emoções, mas lá por casa venceu a da ironia, é claro. Aquela brilhante sugestão deve-lhe ter surgido no intervalo de dois charutos cubanos e dessa fumaça ele lá deve ter visto surgir a baleia branca a ser perseguida pelo feroz capitão Ahab, história para interessar sem dúvida à geração “Morangos Com Açucar”. Escusado será dissertar mais sobre este assunto uma vez que ele é autorevelatório, e sem sequer recorrer ao antigo nitrato de prata percebe-se muito bem o que está lá à espera de ser descoberto. Eu podia dar algumas pistas mas existem coisas que soam melhor caladas porque depois de ditas se tornam triste e trágicas. Só me questiono sobre a escolha deste livro em particular, talvez porque é mais butch que qualquer um dos livros de Charles Dickens ou algum conto do Oscar Wilde, autores concerteza de “cânone” afirmado mas de pena demasiado leve para o Viegas, sim leve nesse sentido; para já não falar nos vários volumes do “Em Busca do Tempo Perdido”, e livro mais canónico não deve haver, mas cujos subtítulos não ajudam, explicar Sodoma, Goromorra ou o que são raparigas em flor às criancinhas só deve ser possível depois de alguns meses de Magalhães, e para além disso ter que escolher um volume em detrimento dos outros seria sempre uma missão impossível para leitor de cânones que se preze.
Outro momento merecedor de destaque é a crónica do Jorge Reis-Sá onde se disserta sobre Philip Roth de um modo tão superficial que nem mesmo aquela senhora da escrita light seria capaz de igualar; mas ora aí está o Roth, desde há uns anos para cá é um eterno candidato ao Nobel e escritor maior da constelação literária (aqui não há espaço para qualquer ironia, desculpem lá qualquer coisinha) que felizmente não precisa deste tipo de crónicas, mas que não pode evitar ser usado por quem asseia obter pontos literários sempre que o seu nome é citado.
Depois temos a crónica do Pedro Mexia sem dúvida engraçada, de humor fino e refinado e que eu arrisco a anunciar como do melhor que a revista tem, embora os temas sobre os quais ele versa sejam cada vez mais de velho precoce há que admitir que ele escreve bem, tout cours, por muito que as suas opiniões por vezes me irritem e se encontrem no pólo oposto das minhas, (in)felizmente encontro mais coisas em comum com ele do que aquelas que desejaria; aliás este é um fenómeno que me acontece com outro indivíduo, o Pereira Coutinho, e tenho que reconhecer, ainda bem que assim é porque ambos escrevem como poucos cá por este burgo.
Vale ainda a pena ler o conto do José Cardoso Pires, porque é sobre os fantasmas do Pessoa à solta pela cidade que tanto amo, Álvaro de Campos à procura da sua Daisy em Lisboa, que através das mãos de Cardoso Pires passa a ser aquilo que só poderia ser, uma carícia profunda e sentida à nossa capital e uma vénia emocionante ao nosso poeta maior. Depois há ainda o resto do dossier de homenagem ao escritor lisboeta, com declarações de amigos e ensaios sobre a obra e livros mais relevantes.
Finalmente há a crónica do Eduardo Pitta com o seu tom bitch cada vez mais apurado, ainda sem a secura de um Edmund White ou a erudição despreocupada de Gore Vidal, mas algures lá pelo meio há-se surgir uma voz sem dúvida original; talvez quando ele deixar de querer emular qualquer uma destas suas, óbvias, referências.
No fim e em suma, apesar do director e de alguns textos, foram muito bem empregues os € 5 que dei pela revista.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Quizzie Time



Vou deixar-vos por uns dias porque amanhã parto para Londres. Vou ver a dupla Binoche/Kahn no National Theatre, o Lago Dos Cisnes pela enésima vez na Royal Opera House (desta vez com um elenco em português do Brasil), comprar, ver e consultar livros até à exaustão na Waterstones, Foyels e Blackwell, comprar CD's e DVD's na HMV e Fopp (que agora parecem ser a mesma coisa...), ver a exposição do Adriano no British Museum e a do Bacon na Tate Britain e se ainda tiver tempo espreitar a extravagância dos candidatos ao Turner prize deste ano que estão alojados pela Tate Modern. No entanto não quero partir sem vos deixar entretidos com um questionário primoroso sobre a censura, isto a propósito da semana de protesto promovida pela ALA (American Library Association).
Pela liberdade dos livros para que nunca nos esqueçamos da nossa.

Preparados?

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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O'er the land of the free and the home of the brave!


O título deste post é retirado da letra do hino dos EUA e serve de reflexão pois na terra da apregoada liberdade quer-se agora fazer censura ao livro de Philip Pullman, "Northen Lights", primeiro volume da triologia "Dark Materials"; infelizmente isto não é novidade porque censura já tem havido noutras ocasiões, por exemplo Gore Vidal já escreveu sobre isso e para bem da sanidade dessa nação ainda pode continuar a fazê-lo.
Para mais pormenores e saber o que o autor censurado pensa sobre o assunto pode ler-se aqui e aqui

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Dumb It Down


A língua inglesa para além do mérito de ter evoluído sustentada pelo talento de nomes como Shakespeare ou James Joyce permite condensar ideias, por vezes complexas, através do uso de duas ou três palavras. Um desses exemplos é a expressão Dumb It Down que embora traduzível expressa melhor o que quer dizer na sua língua mãe.
Did
é o que está a acontecer com a Educação em Portugal e desenganem-se aqueles que pensam que este é um fenómeno que só passa pelo ensino básico ou secundário, a universidade já se encontra contaminada com esta ideia, muito mais depois de se estarem a tornar, cada vez mais, empresas cujos clientes são os alunos que pagam não para aprender mas sim para concluir os cursos depressa e com elevadas notas. Assim há a garantia de se ter clientes muito satisfeitos com os serviços e empresas que funcionam melhor porque bem oleadas pelo fluxo contínuo de dinheiro, que o estado se vai demitindo, de ano lectivo em ano lectivo, de facultar. Este é um processo que se encontra em desenvolvimento mas que ainda não está na ordem do dia porque longe dos holofotes do “marketing” político. Agora o que anda para aí na boca do mundo é o tão famoso computador para crianças, Magalhães; a existência deste computador barato ou grátis, conforme o suporte económico da família da criança que a ele vai ter direito, é justificada pelo nosso PM como fazendo parte do apregoado “choque tecnológico” que teve início com acesso a computadores mais baratos por parte dos alunos do secundário e agora passa a ser mais abrangente servindo também alunos do primeiro ciclo. Para quando os computadores para os jardins-de-infância? Será legítimo perguntar, se não parecesse tão absurda tanto a pergunta como a resposta. Mas não esqueçamos que absurda também pode parecer a entrega de computadores a todos os alunos do ensino básico, pelo menos nos moldes em que se a quer implementar.
Que ganho efectivo têm os alunos em tão tenra idade ao adquirirem e poderem manusear um computador? Acesso e evolução mais rápida às chamadas novas tecnologias, sem dúvida, mas de que servirá isso se a maioria dos pais e professores são quase analfabetos no que diz respeito a estas máquinas? O computador pode ser usado como complemento na aprendizagem em tenra idade mas não se deve cair na ilusão de que vai solucionar os problemas mais prementes do ensino nos dias de hoje. E esses problemas passam por coisas tão fundamentais como programas de ensino tão voláteis como as ideais dos burocratas de passagem, ao longo dos anos, pelos vários Ministérios da Educação e que na sua maioria são pessoas, não digo que mal intencionadas, mas que há muito se encontram afastadas da realidade do ensino. Outros problemas há muito detectados são a indisciplina, a desmotivação (tanto do professor como do aluno), a intromissão pouco construtiva das associações de pais, a falta de uma linha condutora que percorra todos os níveis de ensino sem permitir uma descontinuidade na qualidade do mesmo, a ausência quase total de disciplinas de cariz profissional ou artístico, mais recentemente o laxismo na avaliação rigorosa dos alunos através de exames de conteúdo desajustado, o desaparecimento de disciplinas fundamentais tal como a Química do 12º Ano que ao deixar de ser obrigatória passou a ser preterida por outras mais fáceis e que dão melhor resultado, i.e., notas mais altas. Estes são alguns exemplos que infelizmente não surgem isolados, aparecendo muitas vezes acompanhados de outros que se propagam pelo tecido escolar e por associação a órgãos sociais vitais para a um funcionamento saudável da nossa sociedade civil.
A solução agora apresentada, uma criança = um Magalhães, não é uma equação tão simples como o PM nos quer fazer crer e este sinal de igualdade pode vir a revela-se como contendo ainda mais assimetrias do que aquelas que pretende resolver. Esta “igualdade” vai trazer mais dispersão nas aulas, potenciar a criação de um fosso tanto em casa como na escola, porque uma coisa é explicarem às criancinhas que 2 + 2 são quatro outra será explicar o uso correcto da Internet e controlá-lo de um modo eficiente, não se percebe esta urgência em criar indivíduos tecnologicamente evoluídos sem qualquer preocupação em corrigir outro tipo de analfabetismo que grassa na nossa sociedade e que todos sabemos não passa só por não se saber ler, e que toma forma, por exemplo, nas audiências assustadoras de telenovelas da TVI, nas plateias vazias dos teatros, nas listas de bestseller das livrarias, na propagação exponencial de centros comerciais ou no culto da personalidade exacerbado pelas revistas cor de rosa.
Smart it Up, please, antes que seja tarde demais!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

The Mover

"Quem é o tecido adiposo da crítica literária? E por onde andará a musculatura? Os ossos já se sabe que se encontram espalhados pelos cemitérios de respeitáveis revistas e jornais. Claro que seria sempre redundante perguntar pelo ausente sistema nervoso central..."

Excerto de uma conversa ouvida algures numa rua de Lisboa.

À primeira pergunta apetece responder com o nome de um volumoso crítico da nossa praça mas como o Morrissey diria "some Girls are (& will always be!) bigger than others", e se ele o diz está tudo bem.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A Torre de La Défense


Peça de teatro em dois actos sobre uma passagem de ano em Paris na qual se reúnem alguns elementos marginais da sociedade convencional, um travesti, um casal homossexual, uma senhora burguesa viciada em ácido e um árabe, isto na primeira parte da peça; na segunda parte estas personagens vão-se fazer acompanhar por um americano e um cadáver.
A peça foi escrita por Copi (1939-1987) um autor argentino que viveu e morreu em Paris, este dramaturgo era um criador plástico e isso reflecte-se na apresentação do espectáculo que, especialmente na segunda parte, toma a forma de uma instalação artística que tem como acompanhamento sonoro a leitura do texto por parte dos actores, os quais se encontram fisicamente presentes, mas imóveis, e deitados como cadáveres anunciados de uma morte que pode ser, ou não, real. Talvez por questões logísticas falta o único cadáver que realmente é anunciado na peça, o de uma bebé. A abordagem do texto é por isso “burguesa” não corre riscos e a leitura do texto, tal qual peça radiofónica, também perde por isso. Os actores fazem pouco esforço e não vão muito além daquilo que se espera de uma leitura de ensaio teatral apenas com pequenas nuances de inflexão de voz, pronúncias risíveis, pouco eficazes; como consequência o espectador, que já se encontra distraído pelo apelo dos objectos em cena, não consegue distinguir o que realmente é importante porque essa leitura e encenação em nada os auxilia a focar no, que poderá ser visto como, essencial. Isto acontece na segunda parte que se prolonga demasiado tempo nestas condições precárias para os espectadores e onde se corre o risco de os perder ou no final ou início desta leitura radiofónica da peça.
A primeira parte está mais bem conseguida em termos dramáticos, embora o texto também não seja apresentado de um modo convencional encontra-se mais trabalhado e bem assimilado pelos actores. Depois de Pedro Almodóvar não é fácil a um encenador encontrar uma perspectiva nova sobre este tipo de personagens e até o texto, que precede o trabalho deste realizador espanhol, corre o risco de parecer envelhecido precocemente quando visto por um espectador atento ao que o rodeia. Se no tempo de Copi colocar em cena este exótico conjunto de personagens em palco poderia ser visto como uma provocação, hoje em dia ao recriar este texto há que tentar ir um pouco mais além e dar uma nova dimensão a esse choque em potencial que ainda é, de certo modo, a força motriz desta estimulante peça de teatro. No entanto o trabalho final resulta rigoroso e dramaticamente correcto naquilo que é essencial mas falta-lhe um elemento de edginess que o catapultaria para uma visão mais distante da miopia burguesa que o texto pretende ajudar a sacudir da sociedade contemporânea.
Para ver na Culturgest até ao próximo dia 14.