domingo, 22 de junho de 2008

Natural History


Já lá vão 150 anos e nunca é demais recordar esta história até porque alguns querem fazer esquecê-la. A origem das ideias de Darwin e de como o mundo nunca mais foi o mesmo. Para ler aqui. O pensamento livre sem limites, sempre.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

The Weight of Having the World


O poeta Fernando António nasceu há 120 anos na cidade de Lisboa e com ele nasceram muitos outros; na casa dos espelhos que foi a sua alma todas essas miragens permanecem intactas. Pseudonomes de vidas inventadas onde se encontram todos os poemas do universo re-interpretados por um escritor maior que veio ao mundo disfarçado de palavras cujo peso é a medida certa da nossa Modernidade.

"Lembro-me ou não? Ou sonhei?
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.

O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração,
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão"

In Poesias Inéditas
Fernando Pessoa

terça-feira, 3 de junho de 2008

Who Gives a Fuck



Para ver e ouvir ao vivo no próximo dia 10 de Julho e que bem acompanhados eles vão estar no passeio marítimo de Algés.

Rayuela


Epifanias literárias afinal são tão raras como eram antigamente, ainda me lembro da primeira vez que li Pessoa, Shakespeare, Yourcenar, Borges, Saramago (Vintage ou pré-Nobel), Proust, Dostoiévski e talvez mais uma dezena de autores ou livros que seriam os da minha vida, se a vida também puder ser definida desse modo. Claro que se pensarmos no tempo que passou entretanto podemos chegar à conclusão que afinal não são assim tantos os momentos e autores que nos deixam marca geralmente revelada na impaciência associada à leitura de outros escritores que, comparativamente, são menores; no entanto a intolerância para com estes últimos vai-se esbatendo até ao encontro com outro autor absolutamente genial. Gosto de ser surpreendido desse modo e como a leitura desses sublimes, ou subliminares, autores aguça o que há de mais exigente no meu gosto literário, a surpresa parece que é sempre maior e o contraste mais perfeito. Está a acontecer-me isso com a leitura de “O Jogo Do Mundo” do autor argentino Júlio Cortázar, há muito que não lia um livro que me deixasse tão entusiasmado e que está a contribuir para me ajustar o sentido crítico elevando-o mais uma vez para uma fasquia que só alguns conseguem ultrapassar. Curioso também é reparar, mais uma vez, que a literatura é sempre imitação e que a melhor é aquela que resulta do trabalho do inconsciente, e que os grandes autores são aqueles que vemos espalhados pelos outros e lembro-me de ter lido, antes deste livro, o último de Dan Rhodes “Gold” e de ter pensado que seria uma espécie de imitação barata de um qualquer livro do Murakami e infelizmente sem o apurado sentido de humor de “Anthropology”, o seu primeiro livro de micro-contos, ou mesmo do surpreendente “Timoleon Vieta Come Home”. Agora ao ler Cortázar não consigo deixar de pensar que era isto que Murakami gostaria de fazer com o Jazz que nos seus livros fica suspenso de uma sugestão mas que nunca toma a sua verdadeira substância como n’ O Jogo do Mundo. O livro deste autor sul americano soa como uma belíssima peça musical, que ora parece improvisação, ora o mais rigoroso exercício criativo, é como se estivesse a ouvir os sons primordiais do Jazz que nasceu em New Orleans, que renasceu doutro modo em Chicago, mas com a vantagem de o ver projectado também no futuro; mas isso é só a banda sonora que acompanha a leitura deste magnífico livro porque depois é-nos dado ver retratado também o restante universo artístico do século XX, desde a pintura, passando pela literatura e outras áreas da criação humana. É uma enciclopédia como as enciclopédias deviam ser escritas sem entradas ou definições mas com a informação necessária para a leitura subjectiva do mundo “in” finito da criação humana, isto tudo acompanhado de uma profundidade psicológica das personagens que só é possível quando se recorre a essas mesmas criações e as tentamos definir através do comportamento de quem as vive e também de quem falha a sua percepção.

Velocifero




Ghosts By Ladytron

There’s a ghost in me
Who wants to say I’m sorry
Doesn’t mean I’m sorry

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Rotten Oranges


A política é um fenómeno curioso, repleto de acontecimentos que se na maioria das vezes não são garantia de convergirem no sentido de servir melhor o cidadão comum, têm pelo menos a vantagem de poder entreter esse mesmo cidadão, quando ele opta por sorrir em vez de se deixar exasperar. A exasperação pode ser lida nas crónicas de Vasco Pulido Valente, mas na nossa capacidade de sorrir dependemos quase e sempre só de nós. A corrida à presidência de um importante partido nacional tem-se revelado como um maná de situações caricatas a começar pela figura do ex-presidente, passando pelos candidatos que avançaram e acabando no futuro pouco risonho mas pleno de sorrisos, muitos amarelos, que o final desta estória vai permitir. Temos então na corrida uma múmia, um lázaro e um político de carreira todos a competirem pelo mesmo lugar (os outros nem contam, por muito que o quisessem); paralelamente tínhamos uma criatura boçal, que foge a qualquer espécie de classificação, mas que nunca chegou a ser validada porque só ameaçou dizendo que ia concorrer para logo depois se arrepender dizendo que não sabia se iria e na realidade nunca foi.
A múmia possui um ar de austeridade bacoca que corre o risco muito téneu de ser confundida pela verdadeira austeridade, e para alguns autoridade, porque é sabido que as múmias já não são capazes de mudar de expressão facial, isto pelo facto inerente à mumificação, que no presente caso vai para além daquilo que se aprendeu com a civilização egípcia, e pode-se mesmo falar numa mumificação da alma e das ideias. Ainda ninguém se lembrou de uma palavra de ordem eficaz do tipo “Múmia ao poder” mas todos desconfiam que o poder das múmias está um bocado condicionado, claro que se corre sempre o risco da maldição da múmia no entanto esse tipo de maldições só tem efeito se a múmia ficou muito tempo encerrada no sarcófago o que não é o caso desta que tem andado por aí à solta a perder pedaços de gaze como quem não quer a coisa.
O Lázaro é reconhecido pela sua capacidade de ressurreição, induzida ou não, mas infelizmente tem um prazo de validade curto, isto é limitado a uma ressurreição por vida, mais do que uma torna-se arriscado e geralmente tem como resultado a perda de órgãos vitais quando da segunda ou terceira ressurreição; neste caso percebe-se logo à primeira observação qual foi o órgão vital que ficou por reanimar e só mesmo quem já não o possua poderá falhar esse reconhecimento. “Lázaro ao poder” mas com que órgãos vitais? Essa questão iria assombrar os potenciais eleitores que geralmente só acreditam num milagre à primeira.
O carreirista político é aquele que pode dar mais frutos mas a nós, comuns mortais, de pouco nos servirá porque está à vista de todos o que é um político de carreira, temos um primeiro-ministro com essas características, e o resultado é óbvio, uma política míope, que anda a reboque das notícias que abrem os jornais, televisivos e outros, e que não possuí qualquer profundidade ou visão. Uma mais valia deste carreirista de fundo é ter uma voz bem colocada, sempre resulta melhor no telejornal e pode servir para embalar o povo, nunca pelo conteúdo mas talvez pelo tom, assim de mansinho como se querem as coisas neste país.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Beggining to End


No início desta peça, de Samuel Beckett, é-nos apresentada a imagem do palhaço pobre que poderíamos ver num qualquer circo de província com o cabelo penteado em triângulo, feições marcadas por esgares cómicos que se tornam soturnos, sapatos demasiado grandes e uma roupa velha, gasta e cheia de pó. Este palhaço é um pouco mais triste do que os outros, e essa tristeza é mais humana e quando nos faz rir deixa-nos sempre um sentimento de culpa, porque nos faz rir da tragédia do que se vislumbra ser, ou ter sido, a sua vida. Este é um palhaço que não teria lugar nem nos circos tradicionais nem naqueles mais modernos cheios de espectaculares acrobacias. É um palhaço estranho que só está bem na realidade, embora quase tudo nele pareça irreal e derivado de um pesadelo com o qual se conformou e que ele está decidido a viver até ao fim; um fim que ele escolhe, ou julga escolher.
Um palhaço que anuncia a sua morte no início do espectáculo, e que no nosso esforço de catalogar poderíamos pensar ser um mendigo meio louco daqueles com os quais imaginamos podermo-nos cruzar numa grande metrópole. Mas à semelhança do que aconteceria se com eles decidíssemos conversar, vamo-nos apercebendo que sim, ele é um mendigo, sim ele até pode ser semi-louco mas a sua lucidez por vezes deixa-nos encadeados porque de entre um discurso que parece fragmentado e pouco lógico, vão surgindo ideias que nos assombram e sobre as quais sabemos que nunca havemos de ter uma resposta. Neste caso a ideia do fim, mais precisamente da morte e Beckett até fala através da personagem da possibilidade de algo para além desse fim mas é uma visão onde só existe a perspectiva da continuação dos mesmos rituais, onde se vão perpetuar as mesmas discussões familiares, alimentar as mesmas agruras, mas desta vez gritadas do Inferno para o Céu, este último um local de onde a personagem sabe que foi erradicada.
Outro tipo de morte anunciada no texto tem a ver o com a possibilidade de os deuses nos brindarem com múltiplas vidas e de nós cometermos sempre os mesmos erros, vivermos sempre do mesmo modo, com pequenas variações, que em nada contribuiriam para alterar o resultado final. Razões suficientes para que este palhaço Beckettiano e niilista anuncie que teria preferido ficar toda a sua vida numa sala tendo apenas por companhia um relógio para marcar o tempo, sendo esse mesmo tempo preenchido a dormitar, recostado num sofá, à espera da altura certa para fazer subir os pesos que permitiriam ao relógio continuar a sua corrida na direcção do infinito.
O actor, João Lagarto, sozinho em cena cumpre muito bem a leitura do texto que também traduziu e encenou. Por vezes existe uma intromissão do actor que pode resultar como sendo destrutiva da concentração do espectador, mas até isso é muito bem disfarçado pois a fragmentação do texto permite-o e presta-se a algum improviso; no entanto na minha leitura, e por isso mesmo, o texto deveria ser trabalhado de um modo mais ortodoxo. Este facto não desvirtua em nada o trabalho do actor e até serve para ligar de um modo mais profundo a personagem do palhaço à do ofício de actor, acrescentado desse modo uma auto-ironia que se associa muito bem com as palavras inventadas pelo dramaturgo irlandês.