quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Porque os números são acima de tudo rostos desta tragédia à escala global, aqui está algo que os nossos jornalistas também podiam initar: https://www.nytimes.com/interactive/2020/obituaries/people-died-coronavirus-obituaries.html

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

American Democracy

Quando se mudou para a Casa Branca ainda em contrução, John Adams, o 2.º presidente dos Estados (na altura, quase todos) Unidos escreveu "I pray to Heaven to bestow the best Blessings on this House and all that shall hereafter inhabit it. May none but honest and wise men ever rule beneath this roof." Oração que nem sempre foi atendida mas que nunca esteve tão longe de ser concretizada como nestes últimos quatro anos em que o Trump a habitou.


Algures nos anos 80 Woody Allen entrou na minha vida através de um filme pouco provável, Manhattan não sei o que meu ser pré-adolescente terá pensado dessa obra prima do cinema contemporâneo. Anos mais tarde lembro-me de ter visto Uma comédia sexual numa noite de Verão. Como sempre foi no verão, muito apropriadamente, no cinema do 222 ali ao Saldanha, na rua Praia da Vitória. Passava lá grande parte das minhas férias grandes enquanto eu a minha família não íamos para fora de Lisboa ou mesmo ficando por Lisboa, longe do trabalho. Sem o saber fui construído um peculiar gosto cinéfilo assistindo a vários ciclos de cinema e lembro-me vivamente dos ciclos James Bond e dos do Woody Allen mas também de ter visto 24 vezes o Kramer vs Kramer. Não faço ideia o que o visiomento destes filmes, e doutros, provocaram na mente daquele jovem a caminho da idade adulta, mas lembro-me bem da palavra sexual que aparecia no título do filme do Woody Allen e da desilusão, depois de o ter visto, porque de algum modo aquela ideia de sexualidade seria ainda demasiado sofisticada para mim, embora a outra também devesse ser bastante alienígena. Vi outros filmes que faziam parte do ciclo e que incluíam What's new, Pussycat?, Nem Guerra nem Paz, Bananas, Annie Hall e tantos outros que precederam  Manhattan. Foram verões intensos abrigados do calor vespertino na escura e fresca sala de cinema do 222. Mais tarde reencontrei o Woody Allen noutras salas de cinema e só me apercebi da sua verdadeira relevância quando uma professora de liceu decidiu ilustrar, perante a turma, e para humilhação de todos, que a sua melhor aluna só se poderia revelar desse modo porque afinal ela via filmes do Woody Allen. Lembro-me de ficar em silêncio perante tão avassaladora revelação e nem me atrevi a dizer à tal professora de liceu que eu já via filmes do Woody Allen desde os meus 9 anos, afinal eu não era o melhor aluno da turma. 
Foi no entanto nos livros que encontrei o verdadeiro gosto pelo cineasta nova-iorquino lendo os seus textos e as suas peças de teatro. Agora regressei à sua leitura e mergulhei na sua autobiografia publicada este ano e foi reconfortante perceber que foi através da escrita que ele começou e que é como escritor que ele quer ser recordado. Claro que esse desejo de eternidade é temperado com algum cinismo porque estamos sempre a ser recordados que até os verdadeiros grandes génios da humanidade, de entre os quais ele nunca se considera, um dia destes vão ser esquecidos porque nada neste universo é eterno e nós humildes criaturas que o habitamos há tão pouco tempo, ainda mais frágeis candidatos a qualquer espécie de eternidade havemos de ser. Até lá que isso não nos impeça de apreciar o verdadeiro génio quando com ele nos encontramos, salvaguardando sempre que o gosto pelo trabalho de um génio é sempre discutível e muito pessoal. 
Esta autobiografia leva-nos desde um bairro de Brooklyn nos anos 30 habitado por família judia da classe média baixa até a uma Penthhouse na 5.ª avenida nos anos 70 habitada por um solteirão namoradeiro que se casou apenas duas vezes, uma primeira sem grande sucesso com uma atriz, Louise Lasser, e uns anos mais tarde com Soon-Yi, casamento que dura até aos dias desde hoje e que se mantém bem e de saúde desde os finais dos anos 90. Está escrita no tom ao qual já nos habituámos, humor neurótico e inteligente, que não sendo uma apologia deve ser lido como um ajuste de contas com o destino, com a sagacidade que os anos lhe conferem e a humildade genuína de quem sabe ser mais do que os outros julgam mas, sempre um pouco menos do que levamos os outros a crer.




sábado, 10 de agosto de 2019


Gente Comum



Os prémios dão-nos uma falsa segurança sobre a qualidade do objeto do nosso desejo, eu ainda olho para eles para validar as minhas escolhas. Claro que escolho os prémios de entre os prémios e confesso que tenho tendência para gostar mais daqueles que sinto mais próximos da minha sensibilidade. No entanto, de ano para ano cada vez ligo menos aos prémios, fui aprendendo a olhar para eles com desconfiança porque afinal pouco ou nada sei sobre o painel de pessoas que o validam e porque nos bastidores desses prémios os indivíduos que fazem parte desses painéis não estão apenas presos a preconceitos, aos quais ninguém escapa, mas acima de tudo porque têm quase sempre uma tendência subversiva manifestada na dívida material ou emotiva para com amigos ou pessoas mais próximas que acham que devem servir, elogiar ou ajudar a promover.
Por causa dos prémios, e críticas literárias, já comprei livros que nada me dizem e que me deixam com a sensação de engodo. Por isso cada vez com menos frequência sigo o ditame dos prémios literários ou das longas listas de final do ano que incluem o melhor do que foi publicado. Mas há fascínios que não morrem só porque a razão assim o deseja e lá acabo por comprar aquilo de que toda a gente fala, claro que cada vez menos será uma gente qualquer, passo o snobismo literário.
Acabei então por comprar o primeiro livro da Sally Rooney, jovem escritora irlandesa, ampla e universalmente aclamada pelos quatros cantos do mundo literário. O livro foi lido no original “Conversation with friends” mas já existe uma tradução portuguesa. Sim, ganhou pelo menos um prémio literário e foi elogiado por críticos da New Yorker, revista onde a autora já imprimiu alguns textos, e outras publicações de referência.
Eu lancei-me na leitura do livro e é sem dúvida uma literatura que me cativou desde as primeiras páginas, elegante, subtil, profunda e com um sentido de diálogo que dá uma lição a muitos escritores que para aí andam. Ao terminar o livro fiquei com a sensação de que é um livro competente, muito bem escrito, mas que não passa de um prólogo para o que se lhe seguiu, esse sim, um livro extraordinário e onde é notório que a autora se encontra já sem as amarras que se pressentiam inicialmente na sua obra de estreia. É nesse segundo livro da autora “Normal People”, também já com tradução lusa, que se percebe claramente que estamos perante uma nova e brilhante voz da literatura contemporânea. Tudo no livro é perfeito, o tom, a profundidade, a emoção e como não podia deixar de ser o modo comovente como nos é apresentada a estória da relação entre duas pessoas comuns, um retrato tão íntimo que faz com que o leitor seja o meio através do qual as emoções das personagens navegam, e isso julgo que talvez seja o maior elogio que se pode fazer a um escritor.

sábado, 15 de junho de 2019



Mais uma edição do Festival de Almada sempre com a urgência de se ver e fazer mais Teatro.
Este ano com um espectáculo de Robert Wilson no CCB que dirige Isabelle Huppert em Mary disse o que disse. Este será o grande anzol mas o peixe poderá ser bem mais graúdo do que o desgastado minimalismo teatral do Robert Wilson. Consultando o programa aguça-se o apetite para pelo menos meia-dúzia de espectáculos que valerá a pena arriscar e nem todos vindos do estrangeiro.
A Lulu do Franz Wedekind encenado pelo Nuno M Cardoso, um clássico do século XX muito poucas vezes apresentado em Portugal e que já foi protagonizado pela enigmática Louise Brooks no filme de G. W. Pabst Pandora´s Box ou revestido musical e atonalmente pelo compositor Austríaco Alban Berg. De produção nacional também importa destacar uma peça de Jean Genet Colónia penal encenada pelo António Pires e cuja revisitação é sempre urgente.
Depois é só escolher entre o teatro italiano, croata ou francês para constatar que apesar de todas essas diferentes origens geográficas será tudo muito do que isso, porque o teatro não tem fronteiras e já se sabe que usa de uma linguagem universal.


terça-feira, 28 de agosto de 2018




Nós somos aquilo que lemos ou procuramos nos livros aquilo que somos? Talvez não tenhamos que escolher entre estas duas opções e as possamos tornar inclusivas. Edmund White não é um escritor de romances que eu tenha vontade de ler mas o mesmo não posso dizer das biografias que ele tem escrito, aquela que será a sua Opus Magnum, sobre o escritor Jean Genet, as mini biografias de Marcel Proust ou de Rimbaud e ainda aquela que é um guia, e porque não também uma biografia, pouco ortodoxo que nos poderá acompanhar numa visita à cidade de Paris, The Flâneur. Existe ainda a autobiografia, My lifes, da qual o seu último livro “The Unpunished Vice – a Life of Reading” é o posfácio perfeito. Neste livro Edmund White apresenta-nos o seu percurso de leitor, desde a altura em que se tornou um leitor obsessivo até ao presente e leva-nos por corredores de bibliotecas desconhecidas onde se escondem alguns segredos literários, mais ou menos bem guardados. Por vezes o estilo torna-se demasiado académico e preso numa engrenagem pesada, típica de quem frequenta há demasiado tempo o meio académico e precisa de justificar algumas das suas predileções literárias com o aparecimento de frases e citações de textos, à semelhança de um bom artigo científico. Por aí a leitura do livro não me agrada mas existem momentos, felizmente muitos, em que o escritor deixa de pensar nos seus colegas académicos, ou nos seus alunos de escrita criativa, conseguindo cativar-me como leitor ao ponto de interromper a leitura do seu livro e fazer-me ir procurar os nomes dos autores de que fala, para que eu os possa acrescentar à minha lista de livros que vou adquirir na minha próxima visita a uma qualquer livraria virtual ou real. 
Há momentos em que eu também não consigo distinguir entre o aparecimento de um nome de um escritor como sendo um favor daqueles que são comuns entre mestres do mesmo oficio ou uma referência literária genuína que nada deverá a esse tipo de favores, por essa razão talvez esteja a ser afastado de alguma grande obra literária que só pelo modo e tom com que me é apresentada me deixa sem vontade de a ler. No entanto, num ou outro paragrafo, é despertada a minha curiosidade e só por isso vale a pena ler este livro, porque potencialmente me levará a procurar, e encontrar, autores que nunca li ou que desconhecia totalmente. 
É um livro que no seu melhor se transforma num diálogo franco com o seu leitor e lhe desperta a curiosidade, como se estivéssemos numa das suas aulas de escrita criativa em Princeton, mas sem sofrer dos constrangimentos físicos, e psicológicos, inerentes a ter que manifestar o desagrado por algumas passagens mais narcisistas que apontam sempre na direção da construção de um mito de pés de barro ou de um deixar cair de nomes literários que parece não ser mais que favores entre pares. 

sexta-feira, 7 de julho de 2017


NOS Dead Or Alive


Na imprensa é-nos dito que todos adoramos festivais de verão, e no inverno do nosso descontentamento até nos levam a comprar, ainda em época natalícia, o bilhete para esse sol que esperamos venha a ser a chave para uma garantida diversão. E ao preço que nos custa, mesmo que depois não nos divirtamos, temos que fingir que sim.
Eu também gosto de festivais, mas gosto daqueles festivais que respeitam os espetadores, que não vendem bilhetes para além capacidade razoável do espaço onde vão decorrer, que têm o cuidado de colocar o palco principal num local em que todos o possam ver e não num local plano, pois se até já os gregos, na antiga Grécia, sabiam da existência do anfiteatro, esse formato também não será uma novidade para os organizadores destes festivais.
Neste momento está a decorrer um festival cujo cartaz deste ano é um engodo baseado no esgotado cartaz do ano passado. Se no ano passado tivemos Arcade Fire, Radiohead, Grimes, Father John Misty, Courtney Barnnet, Hot Chip, Tame Impala, Foals, Pixies, etc este ano ficámos pelos The Kills, que aliás estiveram no Coliseu há menos de um ano, ou os dinossauros Depeche Mode e mais um outro ou outro doce musical espalhado pelo medíocre cartaz. E o cartaz só é medíocre porque os organizadores sabiam que, fizessem o que fizessem, iam vender os bilhetes todos e assim sendo para quê o esforço de tentar fazer um bom cartaz, fica-se por onde ficaram e continua-se a usar o slogan de que é o melhor cartaz de sempre, e alguns de nós até pode ser que se deixem convencer disso.
Eu estive presente na origem deste festival, antes mesmo de se chamar OptimusAlive, quando ainda se chamava LisbonSoundz, e aí até não correu mal. Era um espaço pequeno, com a quantidade certa de pessoas, um palco bem visível e um cartaz razoável. Mas de repente transformou-se neste monstro de fazer dinheiro, a música passou para segundo plano e com isso também as pessoas que gostam de ir a festivais pela música.
O ano passado, no último dia do festival a capacidade do recinto, estava obviamente ultrapassada, e qualquer pessoa que quisesse movimentar-se entre os vários palcos teria serias dificuldades em o fazer, estava tanta gente na zona do palco principal que vê-lo à distância nítida de um ecrã de televisão gigante era a única alternativa, mas para isso talvez fosse mais inteligente ficar por casa, certo?
Estes organizadores, ávidos de dinheiro, estão a contribuir para que quem gosta de festivais, pela música, se afaste cada vez mais deles e para além disso como controlam as outras salas de espetáculo acabam por não trazer concertos individuais, são mais arriscados economicamente e dão mais trabalho a organizar, e nós ficamos condenados a um deprimente deserto musical. A Aula Magna é um exemplo de uma sala que praticamente não tem atividade musical digna de nota há meses a fio e o coliseu é uma sombra do que já foi.
Por isso Sr Covões volte lá à sua humilde tarefa de organizar bons concertos musicais, em salas decentes como as que herdou da família, e deixe-se de festivais mortos-vivos que de Alive já só têm o nome.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Capricho


Capricho

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Ela sabia que a honestidade, quando partilhada com estranhos, suava sempre a falso mas isso não a impediu de começar a falar e de por vezes partilhar, com homens que acabara de conhecer, o ridículo dos seus pensamentos mais profundos. Claro que enquanto falava o ia avaliando, tentava imprimir na sua memória características físicas que ela sabia estarem condenadas ao esquecimento; a foda não tinha sido má de todo, para uma primeira vez, as primeiras vezes eram quase sempre difíceis. Agora falava sobre trivialidades com aquele quase estranho e isso para ela era como se estivesse no consultório de um proeminente psicanalista, ao mesmo tempo fazia o esforço possível para o não esquecer e sentia-se ligeiramente excitada com a possibilidade de voltar a fodê-lo a seguir a esta pequena conversa, quase de circunstância, não fosse o peso de alguns assuntos que ela por vezes insistia em debitar. Ela não se atrevia a olhá-lo nos olhos porque sabia que isso seria fatal para a continuação do seu monólogo, inicialmente, quando ainda tinha pouca experiência destas situações fazia um esforço por fazer essa ligação com o outro, depois percebeu que era inútil, o outro ou mostrava enfado ou uma espécie de interesse dissimulado que também era uma forma de enfado, ela sabia que estes desabafos só lhe diziam respeito a ela mas não estava muito preocupada em repetir a situação com o mesmo indivíduo era-lhe indiferente que ele estivesse ou não interessado nas palavras dela. Hoje decidiu que lhe queria falar sobre o seu marido, e dizia-lhe tudo o que havia a dizer sobre ele, ou pelo menos aquilo que ela imaginava saber sobre ele. Nem todos aceitavam assim com tanta naturalidade conversar sobre o marido da mulher com quem haviam fodido, mas através da exploração subtil do voyeurismo dos outros ela conseguia mantê-los interessados. Talvez porque ela, conscientemente, fazia o jogo deles e dava-lhes a esperança remota de poder comparar a foda deles com a do marido. Ela nunca os satisfazia completamente mas também nunca os desapontava, era fácil manter esta linha de compromisso e ajudava-os a mantê-los atentos ao que ela ia dizendo. Isto claro só acontecia quando falava sobre o marido, para os outros temas era mais complicado manter a atenção destes homens. Com as mulheres ela achava mais fácil manter estes monólogos e as fodas eram igualmente boas.
Aquele era o apartamento dele, situado no 8º andar de uma torre de apartamentos de subúrbio, e ela tinha ficado virada de frente para a janela, o vidro cristalino deixava ver uma fração de paisagem citadina, era a hora de almoço de um dia de verão, por isso a intensidade da luz fazia derreter os contornos dos prédios que pareciam querer ascender nos céus, sublimados, e desaparecerem naquela massa de azul celeste. Por segundos deixou o seu olhar perder-se nessa paisagem e quando recuperou consciência  do silêncio que tinha deixado suspenso, para sua surpresa foi interpelada por aquele estranho que lhe perguntou se era feliz. Os prédios depressa readquiriram novamente a sua constituição sólida, a vulgaridade daquela pergunta deixou-a pasmada e ela que sabia muito bem onde isto ia dar decidiu quebrar mais uma regra do jogo, que devia ser sempre só ela a jogar, e olhou-o diretamente nos olhos. Precisava de saber se ele era alguém a quem devia responder sim ou não, se seria um otimista ou um pessimista. Se adivinhasse o conteúdo da resposta que ele desejava ouvir ainda havia esperança de poder acabar com aquele diálogo que ela queria transformar outra vez em monólogo. A máscara que ele usou parecia impenetrável e ela teve que fazer um esforço suplementar para a poder ler, mesmo assim tinha a certeza que se ia enganar por isso socorreu-se da única resposta que a poderia salvar do silêncio, do que tinha deixado interrompido quando parou o olhar nos edifícios derretidos e que agora se tinham tornado tão reais como a tentativa de interação que ele tentava preconizar. Ele levantou-se e aproximou-se dela, ela ignorou esse movimento até ao momento em que ele aproximou o rosto do dela e a beijou suavemente nos lábios engolindo algumas das suas palavras. A ela pareceu-lhe que ele lhe havia roubado não só aquelas últimas palavras como todas as outras que se lhe iam seguir e por isso manteve o silêncio e nesse momento ele aproveitou para lhe fazer a mesma pergunta. És feliz? E só então ela percebeu que não era a reposta que lhe interessava, ele sabia já a resposta, ambos sabiam qual era a resposta, o que lhe interessava era outra coisa e ela ainda não tinha percebido o que era, e nesse momento sentiu-se assaltada por um daqueles momentos de pânico que eram cada vez mais raros nela. O pânico só se manifestou dentro dela. De fora era somente uma mulher que o afastou de si, empurrando-o na direção da janela e pedindo-lhe que a abrisse, acabou por lhe dizer:
- A minha felicidade seria agora tu lançares-te pela janela e eu ficar aqui na cama por de entre os lençóis que ainda guardam o teu cheiro.
Ela fechou ligeiramente os olhos e quando os voltou a abrir ele já lá não estava. Seguiu-se um silêncio musical, daqueles que anunciam o final de um belo quarteto de cordas, e ela respirou fundo entregue à memória do cheiro que ele lhe tinha deixado na cama.



domingo, 11 de outubro de 2015

Clássicos Gregos Para Totós




Fiz questão de assistir à trilogia inspirada no teatro grego clássico e que deu início à nova temporada do D. Maria II. Já escrevi sobre a primeira das peças adaptadas por Tiago Rodrigues, Ifigénia, faltam ainda as outras duas, Agamémnon e Eléctra. O que sobrou dos textos dos autores dos clássicos originais é um espectro desses cânones literários, mas apesar de ser um flébil espectro não perde a capacidade de nos assombrar o presente. O encenador, e agora também director do Teatro Nacional, assume a imperfeição das suas adaptações mas nessa imperfeição não podemos deixar de perceber um movimento que pode ser muito útil à sobrevivência do teatro tal como o conhecemos. As adaptações, alimentadas pela urgência do tempo, não deixam de ser veículos muito eficazes de transporte da mensagem original dos textos que as inspiraram. Eurípedes, Sófocles e Ésquilo são os autores gregos das peças originais e ao longo dos tempos foram lidos, representados e adaptados pelas mais variadas gerações e épocas. Podemos ver essas peças subir ao palco vestindo as palavras originais, quem sabe se no grego antigo, ou assim com se viu no palco do D. Maria II. Ambas as apostas são arriscadas, ambas podem falhar, mas ninguém pode acusar os atores, que se empenharam em as trazer de volta de, pelo menos, não terem tentado.

Pessoalmente gostei do risco assumido por Tiago Rodrigues, acho que as histórias que habitam estas peças devem ser conhecidas do grande público, que os nomes destas personagem devem ecoar nos palcos dos nossos teatros, que as pessoas devem saber que Electra, antes de ser uma personagem da Marvel, já foi uma mulher que habitou a Grécia antiga e que deixou marca na memória poética dos homens.


As peças são-nos apresentadas segundo uma lógica cronológica e têm em comum o facto de serem todas tragédias. Sobre Ifigénia já escrevi e deixámo-la no altar do sacrifico como moeda de troca por ventos favoráveis às embarcações helénicas que foram à conquista de Tróia e do resgate da bela Helena. Agamémnon fala do regresso desse herói da guerra de Tróia, de uma mãe que se quer vingar da morte da filha e de um amante ambicioso que conspira para alimentar o desejo de vingança de uma mãe que nunca deixou Aulis, tendo ficado presa à memória do sacrifício da sua filha e que por isso nunca conseguiu perdoar o marido, Agamémnon.


A liberdade dramaturgica que o encenador deu aos atores é visível e o trabalho de bastidores que envolveu a leitura do texto e a sua interpretação manifesta-se, tanto nos bons como nos maus momentos. Este trabalho deveria ser aproveitado para, com os mesmos atores, colocarem em cena os textos originais. Seria como observar a construção de um belo edifício a partir das suas fundações até à sua estrutura final e julgo que todos nós sairíamos a ganhar com essa aposta.

Tiago Rodrigues poderia ter sido ainda mais ousado e num derradeiro passo, que iria com toda a certeza irritar os que se acham detentores das produções de teatro clássico em Portugal e arredores, dar outro nome às peças ou talvez um sub-titulo em virtude da personagem que acabou por se destacar mais na adaptação da peça. No caso de Agamémnon é sem duvida Cassandra quem rouba todas as cenas, não só porque Isabel Abreu desempenha um papel magnífico, mas também porque se percebe que é naquela voz, que nos fala de um futuro no qual ninguém acredita, que se centra todo o drama das outras personagens. O mesmo acontece com Eléctra que na realidade se deveria chamar Orestes porque Miguel Borges consegue suplantar a interpretação de Flávia Gusmão (Eléctra) que nos apresenta uma caricatura de Eléctra muitas vezes superficial e a roçar o mau gosto teatral. Há momentos em que parece que a actriz fez uma associação básica entre Eléctra e guitarra eléctrica, e não estou a brincar porque existem sérias evidências desse facto. Eléctra conta-nos a terceira parte da história na qual a filha de vinga da morte do pai conspirando com o irmão, Orestes, para matar a mãe, Clitemnestra.


No seu conjunto foram três horas e meia bem passadas, imperfeitas, mas que naquilo que é essencial cumpriram o seu objetivo. Acredito que muitas das pessoas que lá estavam ficaram curiosas sobre aquelas personagens e com vontade de saber mais sobre elas, quem sabe até lerem os textos originais. Por essa razão, e para cumprir a sua missão de teatro nacional, talvez fosse útil encenar estas peças na sua versão original, tenho a certeza que quem foi ver estas versões truncadas iria com toda a certeza arriscar na leitura mais canónica destes dramas, conquistando-se assim público para uma arte que não se quer moribunda e que se deseja viva e de boa saúde.

sábado, 12 de setembro de 2015



Ifigénia em Áulis, ΙΦΙΓΕΝΕΙΑ Η ΕΝ ΑΥΛΙΔΙ, está identificada como a última tragédia de Eurípedes tendo sido estreada no ano de 450 a. C. e julga-se que apresentada já depois da morte de Eurípedes, encenada já não pelo dramaturgo grego mas pelo seu sobrinho.
No meu caso a primeira vez que ouvi falar nesta tragédia foi através da ópera homónima de Gluck, estreada em França no ano de 1774, inspirada numa peça dramática de Racine, tendo sido esta última suportada na obra original de Eurípedes. Na altura fui logo alertado que o final da ópera era feliz ao contrário do que acontece na apresentação do drama original. O público do século XVIII não queria ir à ópera para ver finais infelizes e por isso Gluck satisfez essa vontade contribuindo para umas voltas extra nos túmulos de Racine e Eurípedes. No caso da ópera, Ifigénia acaba por ser salva pela deusa Diana e casa com Aquiles, no drama de Eurípedes acaba degolada e sacrificada no altar que não do casamento. Num dos finais, possíveis, da peça de Eurípedes também surge a possibilidade de Ifigénia ser salva por Diana, não para que esta despose Aquiles, mas para a tornar sacerdotisa em Taurina onde, segundo algumas fontes, se irá reencontrar com o seu irmão Orestes. Mais uma vez Gluck musica este drama, Iphiegénie en Tauride, que pouco tempo depois será reescrito pela pena de Goethe. 
Ifigénia em Áulis, apresenta-nos uma história que em linhas gerais é simples mas de consequências profundas e dramáticas. Em Áulis espera-se por ventos auspiciosos que permitam levar os exércitos até Troia para resgatar a bela Helena, esposa de Menelau, que foi raptada por Páris. Agamémnon, irmão de Menelau e Rei de Argos, é quem convoca os exércitos para levar a cabo tão ambiciosa empresa, vem tudo descrito na Ilíada de Homero, mas neste drama teatral foca-se nesse momento em que surge um impasse alimentado pela natureza, a ausência de ventos, cuja consequência é os exércitos ficarem semanas à espera de uma guerra que tarda até que a situação se torna insuportável. Consulta-se então um oráculo que exige o maior dos sacrifícios em troca dos desejados ventos, Agamémnon deverá sacrificar aos deuses a sua filha, Ifigénia, para que os ventos regressem à baia Áulis, para que os Gregos possam embarcar e consumar aquela que veio a ser conhecida como a guerra de Troia. O drama centra-se então na escolha de um homem que se encontra dividido entre o seu dever de rei e o de pai. Claro que extravasa para além disso, e deixa expostas todo o tipo de ambições e desejos de quem rodeia a família real, e vamos poder ver em cena desde os mais nobres sentimentos, Aquiles, até aos mais vis e egoístas, Menelau, a dor de uma mãe, Clitemnestra, e todo um espectro de emoções ao qual ninguém poderá ficar indiferente.
Tiago Rodrigues decide arriscar e fazer uma leitura pessoal sobre esta tragédia grega respeitando o drama na sua essência, transporta-a até nós, espetadores sentados confortavelmente no século XXI, a muitos anos de distância de uma história que achamos que não nos diz respeito, e desse modo apanha-nos desprevenidos e quando menos esperamos percebemos quão universal é este drama e quão próximo da nossa história atual ele se encontra.
É  uma visão de profundo respeito e entendimento sobre o que é o teatro e de como ele pode ser vivido neste nosso presente. A adaptação consegue resgatar aquilo que é essencial neste drama de Eurípedes e trazê-lo para perto de nós, fazê-lo sentar-se ao nosso lado e perceber que este drama grego poderá não estar tão longe da Grécia que vemos agora nas notícias, que os dilemas humanos vividos podem não ser os nossos mas ecoam emoções cuja ressonância não nos deixa indiferentes. Esta adaptação/visão de Tiago Rodrigues consegue isso tudo graças também a um conjunto de atores muito equilibrado, com destaque para a Clitemnestra da Isabel Abreu. A exceção terá sido alguns elementos do coro, que inundaram as palavras de gestos demasiado intrusivos, desequilibrando um pouco o espetáculo.  

É a primeira temporada em que esta equipa se encontra à frente do Teatro Nacional D. Maria II e não posso deixar de achar auspicioso o modo como a iniciam demonstrando um conhecimento e amor pelo teatro que só pode contribuir para uma reaproximação do público por esta arte tão importante para o tecido cultural da nossa sociedade. Estamos perante uma visão global, inteligente, emocional e que não tem medo de correr riscos contribuindo assim para um teatro vivo, não o deixando esquecido e de salas vazias como tem acontecido nos últimos anos. Ontem a sala estava cheia e espero que assim continue por muitos anos e que este seja o prenúncio de uma longa e próspera relação entre nós e o novo Teatro Dona Maria II



quinta-feira, 25 de junho de 2015




Jardins de Cristais - Química e Literatura
Sérgio Rodrigues

No posfácio o autor confessa: " Muitos livros e referências foram lidos de uma forma apressada, facto pelo qual peço desculpa." E nós como leitores até o poderíamos desculpar se essa leitura apressada não tivesse um tão grande peso ao longo dos vários capítulos que constituem o livro. 
São vinte e dois capítulos que não passam, na maioria das vezes, da catalogação de referencias literárias extraídas de trabalhos de outros autores, quase sempre sem uma articulação eficaz  e  que por essa razão põem em causa a fluidez da leitura. Fazia muito bem ao autor ler os clássicos que cita, mas lê-los de uma forma profunda de modo a melhorar a densidade da sua escrita que sofre de volatilidade crónica.
Embora as razões expostas anteriormente possam tornar penosa a leitura do livro tal não me impede de congratular o autor pela tentativa de nos aproximar da Química através de uma via que considero fundamental para a sobrevivência de qualquer disciplina cientifica, isto é, sustentada numa visão complementar de outras áreas do conhecimento humano, neste caso a literatura, e se possível incluir também todas as outras. O autor lança uma ideia que nos alerta para a invisibilidade da Química num mundo onde ela se encontra presente em tudo o que nos rodeia. O autor sugere que talvez seja uma questão de marketing cientifico, numa sociedade onde os soundbits são a única coisa que se fixa na nossa memória, e quanto mais superficiais e atraentes mais eficazes. A Química poderia produzir soundbits destes a cada fracção de segundo com a única diferença de que nunca seriam superficiais porque lidam com temas que tocam o cerne daquilo que mais importa para conhecer melhor o mundo que nos rodeia.  
É um livro incompleto principalmente no que diz respeito a referências literárias ligadas com o teatro. É certo que são referidos Shakespeare e Strindberg mas faltam muitas peças de teatro contemporâneas cuja importância e impacto justificariam, por si só, um capitulo à parte. A única excepção é "Oxigénio: uma peça de teatro" de Djerassi e Hoffmann que depois nem surge referenciada na bibliografia do capitulo a que diz respeito. Talvez porque o autor não a tenha lido.
Eu desejava que este livro fosse mais maduro, que reflectisse um tipo de cultura cientifico-literária que tem poucos seguidores em Portugal. Na atualidade estou  a lembrar-me de Jorge Calado,  mas a estagnação é evidente e este livro só poderia sofrer desse mal. 

No entanto, e apesar das suas fragilidades, é bem-vindo e deveria servir de exemplo para outros escrevem sobre este tema, em Química, e já agora também noutras áreas cientificas. Todos ficaríamos a ganhar e os tais soundbits, de que a ciência tanto necessita, sairiam reforçados e com um poder ampliado. 

Nota: As capas dos livros de divulgação científica sofrem, na sua maioria, de falta de criatividade e originalidade e esta é mais uma vez exemplo disso.

quinta-feira, 28 de maio de 2015


Lobotomia: uma história de amor




E Morreram Felizes Para Sempre” é um espetáculo que me trouxe à memória a casa assombrada que há uns anos poderíamos encontrar na defunta Feira Popular, onde atores recriavam ao vivo cenas de terror (teatro imersivo?) ou a minha visita ao parque da Universal Studios, na Califórnia, onde fui encontrar uma versão ampliada da mesma casa assombrada mas com referencias fílmicas específicas, resultantes das produções dos filmes de suspense e horror deste estúdio de Hollywood. Não consigo decidir se é bom ou mau mas afasta-me definidamente daquilo que considero teatro, mesmo num sentido não muito restritivo do termo.
Desde que me conheço que gosto e frequento teatros, pelo teatro, e já o vi representado sob muitas formas mas que na sua essência respeitavam alguns dos princípios básicos que nos permitem identificar um espetáculo como sendo teatral. No entanto, neste caso, a tarefa torna-se complicada. Tudo é demasiado superficial para que possa ser considerado mais do que um competente anúncio de televisão, sobre o qual não devemos, nem interessará, pensar muito profundamente. Se o princípio que sustenta o espetáculo, a este nível, até pode ser considerado aceitável quando inspecionado mais profundamente, em termos teatrais, revela-se um desastre absoluto.
As ideias encontram-se tão soltas como a ligação dramática entre as várias cenas que só podemos acompanhar se nos dispusermos a correr, literalmente, de um lado para o outro, fixando-nos numa das personagens ou indo ao sabor das nossas decisões do momento. As ideias avulsas que encontramos seriam ótimas para vender o último champô ou desodorizante do mercado mas em termos dramáticos valem muito pouco. Talvez ajude a clarificar se fizer um resumo da sinopse, que vai buscar inspiração à muito lusitana estória de amor malfadado de “Pedro e Inês”. Como o espaço onde foi dramatizado este espetáculo é um hospital, em particular um hospital psiquiátrico, junta-se à estória de Pedro e Inês a da técnica de lobotomia de Egas Moniz, agita-se bem e espera-se que cole, mas infelizmente não cola. Cedo se percebe que o foco principal nem sequer é contar uma estória ou permitir que os espectadores se deixem envolver e emocionar por essa estória, o foco principal é criar ambientes em micro-palcos espalhados ao longo de mais de vinte salas e onde se exige um nível de concentração próxima de zero, como é apanágio de uma cultura televisiva cada vez mais dominada pelo zapping, o qual se tornou o exercício intelectual mais decisivo?) ou a minha visita da vez dominante o zapping se tornou o principal exercício nossas decisivo?) ou a minha visita praticado por esse mundo fora. A dança é assumida como o principal meio de comunicação neste espetáculo mas falta-lhe a dimensão da palavra, senão que teatro é este? Até no teatro-dança de Pina Bausch encontramos a palavra. As poucas vezes que a voz é ouvida é sob a forma de grito ou trasvestida de um playback manhoso e quase patético.
Como não somos presos pelo lado emocional acabamos por deixar vir ao de cima apenas o ser racional que no seu estado puro é quase tão brutal como o irracional e só conseguimos ver fórmulas gastas em todo o lado: os enfermeiros maléficos, a mulher louca, o piscar de olhos ao universo gay, pois Pedro, que neste caso é médico e sim Inês é enfermeira!, não só se apaixona por outra mulher, que não a sua esposa, como mantém uma relação com outro enfermeiro, o bom, (não, isto não é a Anatomia de Grey...) , na ausência de palavras usa-se o som estridente para confundir os sentidos, pede-se a um ator que faça nu integral, e um rol de clichés que nem vale a pena catalogar.
Se as nossas salas de teatro não estivessem vazias este espetáculo, a € 35 a cabeça, nunca seria uma afronta, assim como nos é apresentado é-o para todos os profissionais que tentam sobreviver através desta arte e que cada vez menos têm como o fazer de um modo digno. É mais um sinal de que a nossa cultura se encontra de rastos, e este espetáculo em nada se distingue dos concertos festivais-de-verão onde nos é pedido que andemos a pular de um lado para o outro sem que nos foquemos em nada em particular. Vendem-nos tudo mas na realidade recebemos pouco em troca, fica só a sensação de algo incompleto ou amputado, e neste caso não foi um membro foi mesmo uma parte do nosso cérebro ao qual é exigido cada vez menos em troca da adrenalina do momento, digamos que o apuramento da técnica perfeita de lobotomia como o professor Egas Moniz nunca imaginou ser possível.

Nota: Há um teatro sediado em Tomar – “Fatias de cá” - que faz este tipo de encenação há anos por isso nem pela originalidade podemos ser conquistados.