quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
American Democracy
sábado, 10 de agosto de 2019
Gente Comum
Por causa dos prémios, e críticas literárias, já comprei livros que nada me dizem e que me deixam com a sensação de engodo. Por isso cada vez com menos frequência sigo o ditame dos prémios literários ou das longas listas de final do ano que incluem o melhor do que foi publicado. Mas há fascínios que não morrem só porque a razão assim o deseja e lá acabo por comprar aquilo de que toda a gente fala, claro que cada vez menos será uma gente qualquer, passo o snobismo literário.
Acabei então por comprar o primeiro livro da Sally Rooney, jovem escritora irlandesa, ampla e universalmente aclamada pelos quatros cantos do mundo literário. O livro foi lido no original “Conversation with friends” mas já existe uma tradução portuguesa. Sim, ganhou pelo menos um prémio literário e foi elogiado por críticos da New Yorker, revista onde a autora já imprimiu alguns textos, e outras publicações de referência.
Eu lancei-me na leitura do livro e é sem dúvida uma literatura que me cativou desde as primeiras páginas, elegante, subtil, profunda e com um sentido de diálogo que dá uma lição a muitos escritores que para aí andam. Ao terminar o livro fiquei com a sensação de que é um livro competente, muito bem escrito, mas que não passa de um prólogo para o que se lhe seguiu, esse sim, um livro extraordinário e onde é notório que a autora se encontra já sem as amarras que se pressentiam inicialmente na sua obra de estreia. É nesse segundo livro da autora “Normal People”, também já com tradução lusa, que se percebe claramente que estamos perante uma nova e brilhante voz da literatura contemporânea. Tudo no livro é perfeito, o tom, a profundidade, a emoção e como não podia deixar de ser o modo comovente como nos é apresentada a estória da relação entre duas pessoas comuns, um retrato tão íntimo que faz com que o leitor seja o meio através do qual as emoções das personagens navegam, e isso julgo que talvez seja o maior elogio que se pode fazer a um escritor.
sábado, 15 de junho de 2019
Este ano com um espectáculo de Robert Wilson no CCB que dirige Isabelle Huppert em Mary disse o que disse. Este será o grande anzol mas o peixe poderá ser bem mais graúdo do que o desgastado minimalismo teatral do Robert Wilson. Consultando o programa aguça-se o apetite para pelo menos meia-dúzia de espectáculos que valerá a pena arriscar e nem todos vindos do estrangeiro.
A Lulu do Franz Wedekind encenado pelo Nuno M Cardoso, um clássico do século XX muito poucas vezes apresentado em Portugal e que já foi protagonizado pela enigmática Louise Brooks no filme de G. W. Pabst Pandora´s Box ou revestido musical e atonalmente pelo compositor Austríaco Alban Berg. De produção nacional também importa destacar uma peça de Jean Genet Colónia penal encenada pelo António Pires e cuja revisitação é sempre urgente.
Depois é só escolher entre o teatro italiano, croata ou francês para constatar que apesar de todas essas diferentes origens geográficas será tudo muito do que isso, porque o teatro não tem fronteiras e já se sabe que usa de uma linguagem universal.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
sexta-feira, 7 de julho de 2017
NOS Dead Or Alive
sábado, 30 de janeiro de 2016
Capricho
domingo, 11 de outubro de 2015
Clássicos Gregos Para Totós
Fiz questão de assistir à trilogia inspirada no teatro grego clássico e que deu início à nova temporada do D. Maria II. Já escrevi sobre a primeira das peças adaptadas por Tiago Rodrigues, Ifigénia, faltam ainda as outras duas, Agamémnon e Eléctra. O que sobrou dos textos dos autores dos clássicos originais é um espectro desses cânones literários, mas apesar de ser um flébil espectro não perde a capacidade de nos assombrar o presente. O encenador, e agora também director do Teatro Nacional, assume a imperfeição das suas adaptações mas nessa imperfeição não podemos deixar de perceber um movimento que pode ser muito útil à sobrevivência do teatro tal como o conhecemos. As adaptações, alimentadas pela urgência do tempo, não deixam de ser veículos muito eficazes de transporte da mensagem original dos textos que as inspiraram. Eurípedes, Sófocles e Ésquilo são os autores gregos das peças originais e ao longo dos tempos foram lidos, representados e adaptados pelas mais variadas gerações e épocas. Podemos ver essas peças subir ao palco vestindo as palavras originais, quem sabe se no grego antigo, ou assim com se viu no palco do D. Maria II. Ambas as apostas são arriscadas, ambas podem falhar, mas ninguém pode acusar os atores, que se empenharam em as trazer de volta de, pelo menos, não terem tentado.
Pessoalmente gostei do risco assumido por Tiago Rodrigues, acho que as histórias que habitam estas peças devem ser conhecidas do grande público, que os nomes destas personagem devem ecoar nos palcos dos nossos teatros, que as pessoas devem saber que Electra, antes de ser uma personagem da Marvel, já foi uma mulher que habitou a Grécia antiga e que deixou marca na memória poética dos homens.
As peças são-nos apresentadas segundo uma lógica cronológica e têm em comum o facto de serem todas tragédias. Sobre Ifigénia já escrevi e deixámo-la no altar do sacrifico como moeda de troca por ventos favoráveis às embarcações helénicas que foram à conquista de Tróia e do resgate da bela Helena. Agamémnon fala do regresso desse herói da guerra de Tróia, de uma mãe que se quer vingar da morte da filha e de um amante ambicioso que conspira para alimentar o desejo de vingança de uma mãe que nunca deixou Aulis, tendo ficado presa à memória do sacrifício da sua filha e que por isso nunca conseguiu perdoar o marido, Agamémnon.
A liberdade dramaturgica que o encenador deu aos atores é visível e o trabalho de bastidores que envolveu a leitura do texto e a sua interpretação manifesta-se, tanto nos bons como nos maus momentos. Este trabalho deveria ser aproveitado para, com os mesmos atores, colocarem em cena os textos originais. Seria como observar a construção de um belo edifício a partir das suas fundações até à sua estrutura final e julgo que todos nós sairíamos a ganhar com essa aposta.
Tiago Rodrigues poderia ter sido ainda mais ousado e num derradeiro passo, que iria com toda a certeza irritar os que se acham detentores das produções de teatro clássico em Portugal e arredores, dar outro nome às peças ou talvez um sub-titulo em virtude da personagem que acabou por se destacar mais na adaptação da peça. No caso de Agamémnon é sem duvida Cassandra quem rouba todas as cenas, não só porque Isabel Abreu desempenha um papel magnífico, mas também porque se percebe que é naquela voz, que nos fala de um futuro no qual ninguém acredita, que se centra todo o drama das outras personagens. O mesmo acontece com Eléctra que na realidade se deveria chamar Orestes porque Miguel Borges consegue suplantar a interpretação de Flávia Gusmão (Eléctra) que nos apresenta uma caricatura de Eléctra muitas vezes superficial e a roçar o mau gosto teatral. Há momentos em que parece que a actriz fez uma associação básica entre Eléctra e guitarra eléctrica, e não estou a brincar porque existem sérias evidências desse facto. Eléctra conta-nos a terceira parte da história na qual a filha de vinga da morte do pai conspirando com o irmão, Orestes, para matar a mãe, Clitemnestra.
No seu conjunto foram três horas e meia bem passadas, imperfeitas, mas que naquilo que é essencial cumpriram o seu objetivo. Acredito que muitas das pessoas que lá estavam ficaram curiosas sobre aquelas personagens e com vontade de saber mais sobre elas, quem sabe até lerem os textos originais. Por essa razão, e para cumprir a sua missão de teatro nacional, talvez fosse útil encenar estas peças na sua versão original, tenho a certeza que quem foi ver estas versões truncadas iria com toda a certeza arriscar na leitura mais canónica destes dramas, conquistando-se assim público para uma arte que não se quer moribunda e que se deseja viva e de boa saúde.
sábado, 12 de setembro de 2015
Ifigénia em Áulis, apresenta-nos uma história que em linhas gerais é simples mas de consequências profundas e dramáticas. Em Áulis espera-se por ventos auspiciosos que permitam levar os exércitos até Troia para resgatar a bela Helena, esposa de Menelau, que foi raptada por Páris. Agamémnon, irmão de Menelau e Rei de Argos, é quem convoca os exércitos para levar a cabo tão ambiciosa empresa, vem tudo descrito na Ilíada de Homero, mas neste drama teatral foca-se nesse momento em que surge um impasse alimentado pela natureza, a ausência de ventos, cuja consequência é os exércitos ficarem semanas à espera de uma guerra que tarda até que a situação se torna insuportável. Consulta-se então um oráculo que exige o maior dos sacrifícios em troca dos desejados ventos, Agamémnon deverá sacrificar aos deuses a sua filha, Ifigénia, para que os ventos regressem à baia Áulis, para que os Gregos possam embarcar e consumar aquela que veio a ser conhecida como a guerra de Troia. O drama centra-se então na escolha de um homem que se encontra dividido entre o seu dever de rei e o de pai. Claro que extravasa para além disso, e deixa expostas todo o tipo de ambições e desejos de quem rodeia a família real, e vamos poder ver em cena desde os mais nobres sentimentos, Aquiles, até aos mais vis e egoístas, Menelau, a dor de uma mãe, Clitemnestra, e todo um espectro de emoções ao qual ninguém poderá ficar indiferente.
É a primeira temporada em que esta equipa se encontra à frente do Teatro Nacional D. Maria II e não posso deixar de achar auspicioso o modo como a iniciam demonstrando um conhecimento e amor pelo teatro que só pode contribuir para uma reaproximação do público por esta arte tão importante para o tecido cultural da nossa sociedade. Estamos perante uma visão global, inteligente, emocional e que não tem medo de correr riscos contribuindo assim para um teatro vivo, não o deixando esquecido e de salas vazias como tem acontecido nos últimos anos. Ontem a sala estava cheia e espero que assim continue por muitos anos e que este seja o prenúncio de uma longa e próspera relação entre nós e o novo Teatro Dona Maria II.







